sexta-feira, 11 de agosto de 2017

[ n. do tr. : Pirro = Varuna ]


Pirro = Varuna

Esta equação resolve os vários problemas da expressão simbólica na ‘Vida de Pirro’ de Plutarco : Pirro = Varuna : temos o ‘rajanya’ de Pirro mesmo, sua aspersão a rei dos macedônios, com a conseguinte perda de toda a energia em sua expedição a Itália que Plutarco ressalta por várias vezes ; o irmão, parente próximo, Neoptólemo que quase fica com o título ; o ‘sautramani’, sacrifício dos três bichos quando da aspersão que refere-se a purificação e ao restabelecimento da energia, força perdida; os laços que tenta impor a Fabrício romano, a riqueza, o elefante e o médico por fim, mas que são desfeitos ; a fala, a palavra enquanto aço afiado, a lei mesma do Eácida filho de Zeus irmão de Minos o legislador por excelência ; a relação pai-filho no princípio e fim na travessia do rio e na morte pela telha ; a questão do dedão do pé que curava as pessoas doentes do baço e que teria, ele o dedão, sobrevivido incólume nas cinzas do corpo incinerado do herói – é o próprio Pequeno Polegar ; enfim comecemos pelos textos sobre Varuna que temos :
Satapatha Brahmana V, 4, 3, 1-2 : “1. Norte do ahavaniya ele coloca cem ou mais de cem, vacas daquele parente dele. A razão porque faz isto é esta : 2. Quando Varuna foi consagrado ( rei ), sua energia, seu vigor, saiu dele. Provavelmente a essência ( seiva da vida ) das águas coletada com as quais o aspergiram, tirou fora sua energia, seu vigor. Ele o encontra no gado e porque o encontra nele, o gado torna-se objeto de respeito. E tendo-o encontrado no gado, novamente toma para si mesmo sua energia, seu vigor. E de modo semelhante este um – esta energia não saiu dele mas faz isto pensando, ‘Este Rajasûya é a consagração de Varuna e Varuna fez isto’.
V, 4, 3, 11 : “Agora por quê para no meio das vacas do seu parente, - o quê quer que seja retirado do homem, seja fama, ou qualquer coisa, isto passa para seu parente mais importante ; - esta energia, ou vigor, ele agora toma de volta do seu parente para si mesmo : isto é porque ele para no meio das vacas do seu parente.
V, 4, 5, 1 : “Bem, quando Varuna foi consagrado, seu brilho saiu dele – brilho significado vigor : este Vishnu, o Sacrifício, foi ele que saiu dele, - provavelmente aquela essência das águas coletada com as quais ele foi ungido naquela ocasião, retirou seu brilho.”
V, 5, 4, 1 : o Sautramani os três animais sacrificados um cabrito marrom para os Asvins pois os Asvins são marrons. Uma ovelha com tetas pendentes para Sarasvati e um touro toma-se para Indra Sutraman ( bom protetor)( segue a história do filho de Tvasthtri, Vishvarupa ( Todas- formas ), cujas três cabeças Indra cortou pois não gostava delas, e que como com Varuna resultou que perdesse sua energia,vigor, sendo então curado pelos Asvins, como já relato, antes, daí o sacrifício Sautramani e no texto seguinte se repete com Vritra).
V, 5, 5 1. Ele prepara um bolo em doze potes para Indra e Vishnu. Bem por quê esta oferta. Antigamente tudo aqui estava dentro de Vritra, para entender, o Rig, o Yagus e o Sâman. Indra desejava jogar o raio nele. 2. ele disse para Vishnu, ‘Jogarei o raio em Vritra e fiques do meu lado !’ -”Assim seja!’ disse Vishnu, ‘Permanecerei do teu lado : jogue-o !’ Indra mirou o raio nele. Vritra ficou com medo do raio levantado. 3. Ele disse, ‘Há aqui uma fonte de força : darei-a a ti ; mas não me bata !’ e deu a ele as fórmulas Yagus. Ele Indra mirou-o uma segunda vez. 4. Ele disse, ‘Há aqui uma fonte de força : darei-a a ti mas não me bata !’ e deu a ele os Rig-versos. Ele o mirou uma terceira vez. 5. ‘Há aqui uma fonte de força : darei-a a ti mas não me bata !’ e deu-lhe os hinos Sâman. Por isto espalham o sacrifício do mesmo jeito ainda ho-je com estes três Vedas, primeiro com as fórmulas Yagus depois com os Rig-versos e então com os hinos Sâman ; pois assim ele Vritra deu-os a ele. 6. E aquilo que foi o assento de Vritra, seu retiro, que ele esmigalha, pegando-o e despedaçando-o [ paralelo em III, 2, 1, 25-28 Yagña ( o sacrifício ) desejava Vâk ( a fala ) pensando, ‘Possa casar com ela !’ Ele uniu-se a ela. 26. Indra então pensou consigo mesmo, ‘Certamente um grande monstro brotará desta união de Yagña e Vâk : devo me cuidar senão podem me vencer’. Indra ele mesmo tornou-se um embrião e entrou dentro daquela união. 27. Bem quando ele nasceu após o tempo de um ano, pensou consigo mesmo, ‘Verdadeiramente tem grande vigor este útero em que estivesse contido : devo me cuidar que nenhum grande monstro nasça dele depois de mim e me vença. !’ 28. Tendo-o pegado e apertado forte, ele o despedaçou e colocou na cabeça do Yagña ( sacrifício ); - pois o antílope preto é o sacrifício : a pele preta do cervo é o mesmo que o sacrifício e o chifre preto do cervo é o mesmo que aquele útero. E porque foi apertando-o todo e pressionando que Indra despedaçou o útero por isto o chifre é amarrado apertado na extremidade da roupa; e como Indra tornou-se um embrião, broto daquela união assim é ele o sacrificante, após se tornar um embrião nascido daquela união de pele e chifre.’ ] : aquilo tornou-se esta oferta. E porque a ciência dos Vedas que descansava naquele retiro era, por assim dizer, tripla ( tridhatu ), por isto esta é chamada Traidhatavi.

Plutarco, Vida de Pirro, VII segue a descrição da souvetaurilia, sautraman, “Não deixou de voltar com Lisímaco mas sim fizeram as pazes e se reuniram para, sobre as entranhas das vítimas, confirmar os tratados com juramento. Trouxera-se um cabrito, um touro e um carneiro e como este morreu por si mesmo a todos causou riso o que sucedeu ; porém o agoureiro Teodoro proibiu a Pirro que jurasse, dizendo que aquele prodígio anunciava a morte de um dos três reis; assim Pirro se afastou da paz por esta causa. … agregava-se a natural enfermidade dos poderosos, que é a ambição desmedida pela qual veio a ser entre eles a vizinhança receosa e desconfiada …”.
No capítulo VIII fala-se de como era tido por ser o melhor capitão por sua perícia na tática e na habilidade assim como na estratégia e enquanto outros reis imitavam Alexandre na púrpura, nas guardas, no torcer o pescoço e no falar alto, ele, Pirro, o representava nas armas e no esforço seguindo então a descrição de Pirro bondoso permitindo as injúrias e críticas a si mesmo, próximas, antes de longe, em lugares distantes.
No IX fala-se de seus casamentos e no X o comparam a uma águia que é a metáfora do exército mesmo, como ele mesmo diz - “Por vocês – lhes disse – sou águia ; como não serei elevado no alto, como com asas, por vossas armas ?”.
No XI é eleito rei dos macedônios após o reconhecerem com o casco-égide ( de aegis (gr.) cabra) de Apolo, Athena : “Tumultuou-se a maior parte do exército e faziam diligência para ver Pirro. Justamente quando quando isto sucedeu tinha tirado o casco, capacete ; porém percebendo o quê acontecia o pôs e foi conhecido pelo penacho que sobressaía e a cimeira que eram uns chifres de bode com o que houve macedônios que correram até ele pedindo a contrassenha e alguns se coroaram com ramas de carvalho porque assim tinham sido visto coroados os que se achavam com Pirro.”
No XII a perda deste mesmo reino e do XIII – XXI a grande expedição à Itália em que sucessivamente vemos a perda do vigor, energia, sendo repetida por Plutarco seja em XV na travessia do mar ou na guerra mesma :
XV “Começou pois por enviar em auxílio aos tarentinos a Cíneas que levou consigo três mil soldados; depois, trazidos de Tarento muitos transportes para cavalos, naves armadas e toda espécie de barco, embarcou vinte elefantes, três mil cavalos, vinte mil infantes, dois mil arqueiros e quinhentos com fundas, fundeiros. Quando tudo estava pronto se fez vela e estando já no meio da mar Jônio foi arrebatada violentamente a esquadra por um vento norte que se levantou e o que era dele mesmo pode, não sem dificuldade e trabalho, ser levado para a margem e chegado a terra pela indústria e cuidado dos pilotos e marinheiros ; porém a esquadra se dispersou e se separou. Umas naves desviadas da Itália correram pelos mares Líbico e Siciliano e a outras que não puderam dobrar o promontório Yapígio as surpreendeu a noite e jogando-as a maré para praias desconhecidas e inacessíveis, se destruíram todas com exceção da do rei. Esta apesar de apenas batida no costado pelas ondas pode suster-se e resistir por seu porte e firmeza aos embates do mar; mas quando começou a soprar e rodeá-la o vento de terra, dano-lhe pela proa, correu grande risco de abrir-se e despedaçar-se. Assim, o mais terrível dos males que se tinha presente era entregar-se de novo a um mar irritado e a um vento que variava e contudo, levantando âncoras Pirro se lançou mar adentro sendo grande o trabalho e o empenho de seus amigos e guardas em estar a seu lado. Mas a noite e as ondas, com forte bramido e violento torvelinho atrapalhava que se socorressem ; de maneira que com dificuldade no dia seguinte, aplacado já o vento pode saltar em terra, alquebrado e sem poder se valer de seu corpo ; porém contrastando pela energia e força de sua alma com tamanho contratempo. Então os mesapios ( Lecce atual ) em cuja terra aportou se apressaram com a maior boa vontade a dar-lhe os auxílios que podiam, procurando recolher as poucas naves que e haviam salvado, nas quais estavam apenas uns poucos homens dos de à cavalo, menos de dois mil de infantaria e dois elefantes.”
XVI perde seu cavalo ;
XVII empresta seu manto e suas armas para um chamado Megacles e que acaba vencido ; mas Pirro aparece com rosto descoberto e continua a luta em que perde seus principais homens ( em 281 a.C. ) : “Eram estes que perdeu nesta guerra os mais avantajados entre seus amigos e caudilhos e quem Pirro mais confiava e considerava.” Vemos claramente o sentido da expressão vitória de Pirro pois venceu os romanos mas perdeu sua força principal.
XXI antes de começar a guerra, Pirro consulta a sacerdotisa de Delphos que diz que ele pode vencer os romanos. Mas ao final Pirro fala : “Se vencemos os romanos numa só batalha, contudo perecemos sem recursos.” E com isto retira-se da Itália.
A parte do parente, irmão, vemos no capítulo V quando da morte de Neoptólemo o tirano seu homônimo que querendo matar a Pirro e pegar seu título acaba morto, tudo acontecendo dentro de casa, no Epiro. Pirro = Neoptólemo o filho de Aquiles, neto de Eáco, filho de Zeus. O filho de Aquiles vinga o pai e mata Páris com o arco de Héracles guardado por Filoctetes em Lesbos, história contada na tragédia homônima de Sófocles e que segundo Vernant e Vidal-Naquet ( cf bibliografia ) é um relato das iniciaçõe efébicas ou crípticas, por iniciar o jovem cidadão na fase adulta da vida : Pirro / Neoptólemo teria inventado a pírrica quando na noite em que saíram, os gregos, do cavalo e mataram os troianos em suas casas : a referência é Eurípedes, Andrômaca, 1135; Luciano, De saltatione, 9; Ateneu, XV, 630. “Uma dupla denominação é uma lembrança de provações de adolescente, onde o iniciado recebe um novo apelido, nome, como símbolo da ruptura com a infância e de acesso a uma vida superior. Valores análogos se ligam ao nome que tomam os religiosos pronunciando seus votos.” ( Marie Delcourt, pg 34 cf. bibliografia ). Segue a mesma autora : “No sexto Pean de Píndaro, que data provavelmente de 490, Apolo decide recusar uma velhice feliz ao homem que matou o velho Príamo refugiado no altar de fogo. E como Neoptólemo se desentende com os serviçais do templo em relação a partilha das vítimas, o deus o mata – entendemos que o faz ou deixa fazer – em seu santuário, Delphos, próximo do largo umbigo da Terra. … O carrasco se chama Machaireus e seu pai Daitas : Porta machado filho de Festim. Todos os dois aparecem na literatura satírica e anticlerical que ralha com os Délficos ávidos de banquetes … deve-se somar que a delphique makaira, o machado ritual, era um símbolo da rapacidade clerical e mesmo da avareza em geral … enfim, não é curioso encontrar a lenda de um Pirros morto por um Machaireus quando um conselho pitagórico recomenda ‘mè tò pỹr tè makaira mokleuein’, não atiçar o fogo com um machado, espada ; símbolo sexual. Estrabão e Pausânias dizem que Pirro foi saquear Delphus daí a morte. Píndaro silencia sobre isto.” ( pgs 37-40 ).

O túmulo de Neoptólemo / Pirro em Delphos é descrito por Pausânias em seu ‘Guia da Grécia’ ( cf. bibliografia ) que conta esta história toda e faz referência a um ditado sobre sua morte : “o quê uma pessoa faz volta para ela”. A pedra que Rhéa deu a Cronos para engolir substituindo Zeus bebê está próxima daí falar-se de umbigo do mundo, o ômphalus de Delphos, onde Apolo sentado pronunciava seus oráculos imagem que vai se tornar sinônimo de palavra oracular em grego ‘omphé’, verbo que tem este sentido, definição. O ômphalus é uma pedra-túmulo : abaixo dele estaria enterrada a serpente Python morta por Apollo, ela todo ano recebe óleo em festividades que rememoram o acontecido e constitui a liturgia da iniciação dos adolescentes ( meninos e meninas ) da Amphictionia grega ( da união dos povos gregos que derrotou Tróia povos cujos nomes estavam escritos em coluna no templo mesmo de Delphos ). O ritual chama Stepterion e é descrito por Plutarco em De musica, XIV, p. 1136; Quest. Grec. XII; Def. Orac., XV; por Estrabão, VIII, p.422; e Elien,Hist. Var.., III, 1 : “Uma cabana de madeira é levantada lá no pátio, de nove em nove anos, não é apenas um buraco como uma toca de serpente mas é a imitação da morada de um tirano ou rei e o ataque é feito em silêncio sobre ela durante o quê é chamado Doloneia ... Com tochas acesas acompanham um garoto cujos pais ainda vivem e quando já colocaram fogo na cabana e virado a mesa, eles fogem sem olhar para trás pelas portas do santuário. Finalmente as vagâncias e a servidão do garoto e as purificações que acontecem em Tempé faz-se suspeitar que houve uma grande poluição e algum ato ousado. Eles vão até Tempé entregando-se a purificações e voltam a Delphos pela rota Pythias, coroados de louros sagrados. Seu ‘architheore’, provavelmente o ‘amphithales’ da primeira noite, leva um ramo de oliveira. Os antigos interpretavam o Stepterion como uma comemoração do combate de Apollo contra Python, cuja morte o deus expiou se exilando e servindo Admeto durante um ano.” Ou seja Apollo desce do céu para expiar, purificar, seus pecados ao matar a serpente e a mesma expiação, purificação repete-se ritual e liturgicamente. Este exílio iniciático é um noviciado com provas que são o exílio ( phygé ), corridas vagabundas ( plánai ), a servidão ( latréia ), escondimentos ( krýpseis ). Tanto Henri Jeanmaire ( p. 394 ) quanto Marie Delcourt ( p. 109 ) ( cf. bibliografia ) mostram que o mesmo ritual de liturgia purificadora, por incrível que pareça, repete-se em Atenas com a história de Teseu em Creta conquistando a liberdade e a democracia. Jeanmaire lembra a ‘Confessio de S. Cypriani’ ( AA. SS. Set VII p. 222 ) que estabelece uma relação entre a iniciação dos jovens infantes e a representação do combate contra Python : Cipriano foi dedicado a Apollo quando criança.

A Doloneia, Dolonia, é um episódio noturno da Ilíada que reproduziria a iniciação de Neoptólemo por Ulisses relata na peça de Sófocles, ‘Filoctetes’.

Pausânias descreve a pintura de Polygnoto ( pg 474 ) : “Polygnotos fez Neoptólemo o único grego ainda massacrando troianos porque toda a pintura foi encomendada para ficar acima do túmulo de Neoptólemo. Homero dá ao filho de Aquiles o nome Neoptólemo em toda sua poesia mas a Cipria diz que ele era chamado Pirro ( vivaz, enérgico, ruivo ) por Licomedes e Neoptolemos ( jovem soldado ) por Phoinix porque Aquiles era ainda bem jovem quando Neoptolemos começou a batalhar. Há um altar na pintura com um menino pequeno assustado segurando nele ; uma couraça de bronze descansa no altar. Este tipo de couraça era raro no meu tempo mas a usavam na antiguidade. Há duas peças de bronze, uma encaixando no tórax e nos músculos do estômago e a outra protegendo as costas ; eram chamadas ‘buracos’, ‘côncavos’ : uma entrando na frente a outra atrás e você as junta com as fivelas.”
Esta pintura existia na época de nosso Pirro do séc.III a.C. e por isto podemos entender o capítulo III de Plutarco em sua Vida de Pirro : “Tendo-se salvado e evitado a perseguição desta maneira [ o capítulo II fala da passagem de Pirro bebê pelas águas, plena de significados simbólicos também ] se dirigiram para a Iliria para a casa do rei Glaucias e estando ele sentado com sua esposa, puseram a criança no solo no meio deles. Começou o rei a sentir temor de Casandro [ rei da Macedônia ( 357-297 a.C. ) filho de Antípatro. Foi ferrenho inimigo de Alexandre Magno e inclusive se suspeita que o envenenou ( ano 323 a.C. ) ] que era inimigo dos Eácidas e ficou bastante tempo em silêncio consultando a si mesmo. Com isto Pirro, indo engatinhando até ele por impulso próprio lhe pegou o manto com as mãos e levantou-se ficando de pé nos joelhos mesmo de Glaucias, primeiro se pôs a rir e depois ficou com o semblante triste, como de quem roga e está em aflição, prorrompendo em choro. Alguns dizem que não se colocou aos pés de Glaucias mas que levantou-se na ara dos deuses e que se colocou de pé segurando nela com as mãos, o que Glaucias teve como um grande prodígio [ não é a imagem da pintura ?! ]. Fez pois a entrega de Pirro a sua esposa encarregando-a de criá-lo com seus filhos ; e reclamando-lhe daí a pouco os inimigos, não o entregou, ainda que Casandro o oferecesse duzentos talentos, e quando já tinha doze anos o acompanhou ao Epiro com tropas e o fez ser reconhecido rei. [ mas e a couraça ? Vemos em Satapatha Brahmana V, 3, 5, 25 que a roupa de iniciação pertence a Varuna e é disto que se trata pois a couraça é a roupa de iniciação do soldado que não veste mais seus membros sua roupa natural mas a roupa de Varuna. ] Resplende no semblante de Pirro a dignidade régia, sobressaindo mais, contudo, o temível que o majestoso. Não tinha o número de dentes que os outros mas acima tinha um osso apenas unificado, no que, como linhas retas, estavam aqueles desenhados. Diz-se que tinha a a virtude para curar aos que padeciam do baço, sacrificando um galo branco e apertando suavemente como pé direito o doente que devia estar deitado ; e ninguém era tão pobre ou desvalido que não participara desta graça se se apresentava a pedi-la. Tomava como prêmio um galo depois da sacrifício e o estimava muito. Diz-se também que o dedão do pé, o polegar, tinha igualmente uma virtude divina, de modo que queimado o corpo depois da morte, o dedo se encontrou ileso e intacto do fogo. Mas disto falaremos depois.”

Pirro = Pequeno Polegar : não vimos os Vedas no útero de Vritra ? Indra mesmo dentro do útero igual ao Pequeno Polegar tradicional ? Henri Jeanmaire em seu livro ( cf. bibliografia ) está com toda a razão : a criança iniciando-se na vida adulta com provas e purificações é o Pequeno Polegar em seus sucessivos úteros. Gaston Paris, ‘O Pequeno Polegar e a Ursa Maior’ em que ele precisa conduzir o carro da constelação do polo norte, imagem que o aproxima de Phaeton conduzindo e caindo com o carro do sol : de Phaeton fala o capítulo I da Vida de Pirro de Plutarco que foi o primeiro a reinar no Épiro vindo com os Pelasgos. Depois vieram Deucalião e Pirra que sobreviveram ao Dilúvio numa arca. Marie Delcourt ( cf bibliografia ) disserta largamente sobre estas duas purificações pelo fogo e pela água que teriam sido contemporâneas sendo que Phaeton teria caído na Etiópia depois foi para o Épiro. Lembra a doutrina estóica dos cataclismos pelos elementos, tipo de Sodoma e Gomorra ; a doutrina de Heráclito do fogo imortal que julgará e condenará todas as coisas. Enfim que a purificação pelos elementos aparece quando “Anchises fala a Enéas de uma alma ígnea que deve ser purificada pelos três elementos, ar, água, fogo. Os mistérios procuravam simbolicamente esta regeneração que serviria de prelúdio a uma imortalidade feliz” ( p. 88 ).

René Guénon em ‘O simbolismo da cruz’ fala sobre a serpente ( cf. bibliografia ) ; “Tomando o simbolismo da serpente enrolada ao redor d’árvore constatamos que esta figura é exatamente a da hélice traçada ao redor do cilindro vertical da representação geométrica que estudamos. Àrvore simbolizando o ‘eixo do mundo’, como dissemos, a serpente figurará pois o conjunto dos ciclos da manifestação universal ( daí a imagem do yin/yang ); e, com efeito, efetivamente o percurso dos diferentes estados é representado, em certas tradições,como uma migração do ser dentro do corpo desta serpente ( daí a figura do ouroboros a serpente mordendo a própria cauda : ‘quem quiser ser o primeiro seja o último e o servo de todos’, etc. ). Como este percurso pode ser visto seguindo dois sentidos contrários, seja no sentido ascendente, para os estados superiores, seja no sentido descendente, para os estados inferiores, os dois aspectos opostos do simbolismo da serpente, um benéfico e outro maléfico, se explicam por eles mesmos ( daí a imagem do caduceu de Hermes que é também hindu ). (…) Podemos ver um aspecto em que a serpente figura o encadeamento do ser à série indefinida dos ciclos de manifestação – é o samsâra buddhista, a rotação indefinida da ‘roda da vida’ da qual o ser deve se libertar para atingir o Nirvana. O apego à multiplicidade é também, em certo sentido, a ‘tentação’ bíblica, que afasta o ser da Unidade central original e impede de atingir o fruto da ‘árvore da vida’ ; e é bem por ela, efetivamente, que o ser está submetido á alternância das mutações cíclicas, isto é, ao nascimento e morte. Este aspecto corresponde exatamente ao papel da serpente ( ou do dragão que lhe é então equivalente ) como guardião de certos símbolos de imortalidade do qual defende a aproximação : é assim que vemos enrolada na árvore dos pomos de ouro do jardim das Hespérides ou da castanheira da floresta da Cólquida na qual está suspensa a ‘pele do carneiro de ouro’ ; é evidente que estas árvores não são outra coisa que formas da ‘árvore da vida’ e que consequentemente representam ainda o ‘eixo da mundo’”.

O mesmo autor em ‘O rei do mundo’ diz o seguinte : “Voltemos ao termo hebraico Luz e às suas múltiplas significações : comumente significa ‘amêndoa’ ( e também designa ‘amendoeira’ designando por extensão àrvore e o fruto ) ou ‘núcleo’ [ a ‘mandorla’ ‘amêndoa’ da tradição iconográfica cristã ], como se sabe, o núcleo é o que existe de mais interior, de mais oculto, de mais fechado, donde a ideia de ‘inviolabilidade’. Dá-se também este nome a uma partícula corpórea indestrutível, representada simbolicamente como um osso muito duro, ao qual a alma permanece unida depois da morte até a ressurreição.Tal como o núcleo contém o germe e o osso a medula , Luz contém em si os elementos virtuais necessários à restauração do ser ; … sendo imperecível ( em sânscrito o termo akshara significa ‘indissolúvel’ e por consequência ‘imperecível’ ou ‘indestrutível’; designa a sílaba elemento primeiro e germe da linguagem e aplica-se por excelência ao monossílabo ‘Om’ que é dito conter, em si a essência do triplo Veda ) Luz é no ser humano o ‘núcleo da imortalidade’, tal como o lugar designado pelo mesmo nome é a ‘morada da imortalidade’. … Luz é situada na extremidade inferior da coluna vertebral, o que podendo parecer imediatamente estranho, se compreende melhor se estabelecermos uma comparação com o quê a tradição hindu diz da força chamada kundalini ( kundalini significa enrolado em forma de anel ou espiral ; este enrolamento simboliza o estado embrionário e ‘não desenvolvido’.) que é uma forma da shakti considerada como imanente ao ser humano. Esta força é representada sob a forma de uma serpente enrolada sobre si mesma, numa região do organismo sutil que corresponde precisamente a extremidade inferior da coluna vertebral; pelo menos assim acontece no ser humano normal, mas, pelo efeito de determinadas práticas, tais como a da hatha yoga, ela acorda, desenvolve-se e eleva-se através das ‘rodas’ ( chakras ) ou ‘lótus’ ( kamalas ) correspondentes aos diversos plexus, até atingir a região correspondente ao ‘terceiro olho’, o olho frontal de Shiva. Este estágio representa a restituição ao ‘estado primordial’ em que o ser humano recupera o ‘sentido da eternidade’ e através do qual alcança aquilo a que já chamamos imortalidade virtual. Até lá, continuamos ainda num estado humano ; numa fase posterior, a kundalini atinge finalmente a coroa da cabeça ( brahmarandhra ) - é está última fase que corresponde a conquista efetiva dos estados superiores do ser. Pode-se pois concluir desta comparação que a localização de Luz na parte inferior do organismo se refere unicamente à condição de ‘homem pecador’...” .

Não só o dedão do pé / Pequeno Polegar explica-se como também explica-se a morte de Pirro pela telha relata em Plutarco, Vida de Pirro, XXXIV, o último capítulo – sim, a morte pela telha que uma velha anciã jogou do telhado em Argos ( ele ia bater no filho dela ) pegando-o sem a coroa e matando-o, é esta passagem pelo brahmarandhra, pela coroa da cabeça, e sim, as outras etapas da vida do Eácida são as diferentes fases da vida humana descritas por R. Guénon até que finalmente ele se liberta. O terceiro olho seria seu cavalo atingido e morto de frente em Esparta quando atacava a cidade anteriormente, morto por uma saeta, flecha, de Creta.

Citemos, cotejemos, Ananda Coomaraswamy, sobre o tema em ‘Atmayajña’, pg 401 : “Vimos que a conquista de Ahi-Vritra, a morte e o alimentar-se do Dragão, não é que o domínio do si-mesmo pelo Si-mesmo ; e que a oferta-ao-fogo é símbolo e deve ser o fato desta conquista. ‘Aquele que faz a oferta-de-fogo ( agnihotram ) despedaça a armadilha da cobiça, corta fora ilusão e desfaz a raiva’ ( MU VI. 38 ).” ( // ‘Nirvana é destruir luxúrias, destruir raivas, destruir ilusões.” ) e pg 399 : “E verdadeiramente os que compreenderam isto anteriormente se abstêm de fazer uma real oferta de fogo ( agnihotram na juhuvam cakrub ). Deste mesmo ponto de vista que o Buddha ( S. II, 106 etc ; M. I, 77 ) … pronuncia ‘Não empilho lenha para altar de fogo ; acendo uma chama dentro de mim ( ajjhatam = adhyatmikam ), o coração lareira ( the heart the hearth ), a flama nele o si-mesmo dominado ( atta sudanta, S.I. 169; i.e. saccena danto, S.I. 168 = satyana dantah ).”

O dragão, serpente, então é a alma sensível que é destruída. Vimos no começo a destruição da casa de Vritra, que se repete no ritual iniciático de Delphos / Atenas de destruir a cabana de madeira e virar a mesa. A caverna, o ‘ventre’ de Vrtra, é a ‘matriz de Brahma’ a partir da qual todas as coisas são produzidas em princípio, i.e., todo começo : “… o Pai e o Filho, o Dragão e o Herói Solar, ainda que aparentemente em oposição são secretamente unidos, são um e consubstanciais” ( A. Coomaraswamy, Angels and Titans, pg 74 ). “A tentação de Naciketas por Mrtyu, Yama, em nosso texto [ Katha Upanishad onde é relata a história de Naciketas que desce ao reino do mortos e é tentado pela Morte, história que se repete com Varuna e seu filho Bhrigu em Satapatha Brahmana XI, 6, 1 e com Sunasepa junto de Varuna, em história relata ritualmente no rajasuya mesmo ] corresponde a tentação de Mara em J. I, 63 ( oferta da soberania universal ) e J. I, 78 (filhas de Mara ) e a Mateus IV, 8, 9 ‘te darei todas estas coisas, se...’ e a tentação da ‘serpente’ no Gênesis. O Tentador ( seja Amor ou Morte, Satan ou Serpente ) é sempre um e o mesmo Pai Titã de quem procede Agni que dá adeus em rV X, 12, 3-4 e o Tentado sempre o ‘Ser Humano’ solar (…) O caráter virtualmente idêntico das três tentações,aquelas do Buddha, do Cristo e de Naciketas empresta, dá apoio adicional à visão que Katha Upanishad é a história não tanto especificamente de um ‘sacrifício humano’ mas dos acordos do Ser Humano Universal com a Morte ; ou se desejarmos evitar esta conclusão, é manifesto pelo menos que a transação de Naciketas com a Morte é um ‘tipo’ de conquista da Morte pelo Ser Humano Universal, no mesmo sentido que o sacrifício de Abraão é ‘tipo’ do sacrifício do Filho do Homem.”

E aqui podemos voltar para Plutarco, Vida de Pirro, II sobre a travessia do rio que Pirro bebê precisou enfrentar. O historiador francês Jean Gagé escreveu quatro artigos intitulados ‘Pyrrhus e a influência religiosa de Dodona na Itália primitiva’ ( cf. bibliografia ) : lendo estes artigos entendemos porque comparar Pirro = Varuna justamente porque Tarento, Crotona, o sul da Itália em geral e a Sicília são Magna Grécia ainda nesta época depois tornam-se latinas, Crotona é destruída : Pitágoras de Crotona é exilado e sua ordem perseguida ou transferida para Roma mesmo. Euclides e Arquimedes podemos dizer são contemporâneos de Pirro : é o apogeu da cultura da Magna Grécia ( é o lado Mitra do Varuna Pirro ) : além destes três houve Alcmeon de Crotona, Filolau de Crotona, Arquitas de Tarento, Lisis de Tarento, etc. Arquimedes ao descobrir o peso específico dos metais está descobrindo a tabela periódica dos elementos. A geometria de Euclides ainda está em todas as salas de aula apesar de toda álgebra moderna. Pitágoras mesmo ‘fala como da Pítia’ é fundador desta ordem religiosa científica e que como já vimos é tradicional semelhante as do oriente contemporâneas, unidas a elas, tese que explicitamente defendemos. J. Gagé não fecha os olhos para Numa estudando em Crotona pitagórica, muito pelo contrário mostra a semelhança de doutrina do segundo rei de Roma ( que construiu legislativamente a cidade ) com Pitágoras e o oriente de modo geral seja no vegetarianismo, seja no silêncio, seja na transmigração d’alma, seja no estar plenamente atento ( a plena atenção ), seja na unidade com a natureza para produzir o conhecer, o céu, as aves, o rio, as árvores, o vento, etc : a pedra que é o centro do mundo, o rio, fonte, que sai dela, a árvore da vida, os pássaros do céu. É assim que J. Gagé interpreta o capítulo II da Vida de Pirro como um acontecimento simbólico : o bebê perseguido chega a margem do rio fugindo, as águas estão turbulentas, os que o carregam precisam falar com os que estão na outra margem, escrevem numa cortiça explicando tudo, lançam-na amarrada em uma pedra para dar impulso ao tiro da flecha, quando os do outro lado entendem cortam troncos e fazem uma ponte “… e fez a causalidade que o primeiro que passou para o outro lado e pegou o menino chamava-se Aquiles.” Ou seja pai de Pirro, Aquiles; ponte entre pai e filho. J. Gagé vê na cortiça que boia, flutua, e ao mesmo tempo livro, lugar de escrever, um ente simbólico presente no nome de Crotona, cortona, e em ‘cortumio’ de Varro, L.L. VII, 9, cor + tueri : intuir de coração.

Vejamos A. Coomaraswamy, ‘Some Pali Words’, Samudda ( como ‘adhivacanam’ de ‘nibbana’ ). No buddhismo como no brahmanismo, o ‘caminho’ do Peregrino considerado como uma viagem ( ‘yana’ neste sentido ) pode se relacionar a três caminhos diferentes no fluir do rio da vida e da morte. A jornada é ou subindo a corrente para a fonte d’água ; ou através das águas para a outra margem ; ou descendo a corrente para o mar … Mais familiar é o simbolismo da ‘outra margem’ a ser alcançada de várias maneiras seja com balsa, um barco, ponte ou passagem, em conexão com o qual encontramos uma grande variedade de termos tais como tara, tarana, tiram, tirtha, tratr, etc derivando de ‘tr-’, ‘atravessar’ ( nota : ‘tirtha’ é ‘lugar de travessia’ ; ‘tirthankara’ virtualmente sinônimo de ‘pontifex’, pontífice, que faz ponte. Tara é salvadora e também ‘estrela’, cf. a Virgem como Stella Maris. Tratr é barqueiro ou salvador. Tarana é ‘travessia’ ; daí ‘avatarana’, ‘cruzando de volta’, i.e. a ‘descida’ de um Salvador. Tiram é ‘travessia’ em S. 5, 24 onde temos ‘Poucos são os mortais que alcançaram a outra margem.” Nosso termo latino ‘terminus’ é cognato. Neste caso as Águas a serem atravessadas são especificamente o Rio da Morte ( M. 1, 225-7 ; DhA 2, 275, etc) ou como mais completamtne explicado em S. 4, 174-5 o Grande Dilúvio de Água ( maha udakammavo ) é o dilúvio da vontade, nascimento, opinião e ignorância ( kama, bhava, ditthi, avijja ), a Margem de Cá representa ‘encorporamento, encorporação’ (sakkaya ), a Margem de Lá ‘nibbana’ e o “Brahman que atravessou e alcançou o outro lado e permanece em solo firme” ( tinno paramgato thale tithati brahmano ) é o Arahat. A fórmula de atravessar para a margem outra segura ocorre repetidamente no contexto buddhista e brahmanista igualmente, de modo que exemplos mais não precisa. A metáfora de um ‘barco’ salvador ( Pali e Skr. Nava )está preservada em nossa ‘nave’ ( de uma igreja ). ( … ) Este valor de ‘samudda’ ( mar ) em S. 5, 39-40 encontramos “como rios tendem, inclinam e gravitam para o mar” ( samudda-ninna, -pona, -pabhara ) igualmente o Oferente que cultiva o Nobre Caminho Óctoplo “… inclina, tende, gravita para Nibbana” ; similarmente S. 5, 134 // S. 4, 179-180. As palavras -ninna, -pona, -pabbhara ou seus equivalentes ‘mutatis mutandi’ ocorrem em outros lugares notavelmente na bem conhecida metáfora dos caibros que convergem em direção e descansam no telhado do domo e á assim que os poderes d’alma convergem em direção e descansam em samadhi ( M. 1, 322-323, Mil. 38, etc ).” Ou seja explicação da morte pela telha à qual soma-se outros três relatos de arhats elevando-se nos ares e fazendo a saída da casa quebrando através da ‘kannika’, do telhado : Jataka 424, Jataka 31, Jataka 418 e principalmente Jataka 396 onde o Bodhisatva explica em uma parábola : a ‘kannika’ e os caibros são como o rei e os seus ministros e amigos. Se não houver ‘kannika’, os caibros não permanecerão, se não houver caibros, não há nada para suportar a ‘kannika’ ; se os caibros quebram a ‘kannika’ cai ; justo o mesmo no caso de um rei e seus ministros ( pg 236, O simbolismo do Domo, A. Coomaraswamy ; na pg 205 o eixo do mundo no chão da lareira onde foi pregada a cabeça da serpente e subindo até o alto da chaminé : a morte de Neoptólemo em Delphos ).

Há mais ocorrências orientais na ‘Vida de Pirro’ de Plutarco : a famosa conversa entre Pirro e Cinéas o sofista seu porta-voz em que lhe questiona sobre até quando conquistar, guerrear, depois de Roma e a Itália, a Sicília, Cartago e África, etc se não era melhor sentar e ficar dentro do próprio reino. Plutarco mesmo já falara da doença que é a cobiça como vimos. E o tema repete-se neste capítulo XIV : o XV já mostramos é a travessia fatídica. Esta conversa acontece nos Jatakas 467 e 228 e neste último as cidades das conquistas são a do Mahabharata, que como mostra G. Dumèzil é o imaginário da ‘Vida de Publícola’ de Plutarco, o fim da monarquia e a instalação da república com os heróis do Mahabharata, p. ex. no cap. XIV, Horácio Cocles, o caolho na ponte, seria Dhrtarastra / Odin – a mesma figura aparece na Vida de Pirro cap. XIX, a do velho cego que entra no Senado e lembra aos romanos sua valentia : Cinéas diria então que o Senado parecia uma reunião de reis. Deste ‘samraja’ fala Bharata no Ramayana para não fazer o ‘rajasuya’, sarga LXXXIII já no final do épico :
A esta ordem de Rama, aquele que o karma que não desmerecia, o guardião chamou aos dois jovens príncipes e voltou a informar disto seu Amo. Este vendo perto de si Bharata e Lakshmana, abraçou as dois e logo lhes disse : “Cumpri lealmente a missão sem igual do Duas-vezes-nascido. Agora quero, também, rodear a lei de sua defesa, oh! Filhos de Raghú !A lei é indestrutível e imutável de tal modo sua barreira é formidável, a meu juízo, e proclamar a lei é destruir todos os males. Acompanhado de vocês, que sois outro eu mesmo, desjo proceder ao importantíssimo sacrifício da consagração real pois isto é um dever imprescritível. Foi através da oferta do rajasuya, que Mitra, açoite de seus inimigos, por meio desta rica oferenda, deste belo sacrifício, chegou a qualidade de Varuna. E Soma, tendo oferecido também o rajasuya, segundo a lei, que conhecia a fundo, conseguiu nos três mundos um renome e um posto duradouros. Neste dia, o que convém mais, pensem nisto comigo; o quê agora é útil e vantajoso para o porvir, dí-me-lo, sinceramente.”
Assim falou Raghava, Bharata, orador hábil, fazendo o anjali, lhe dirigiu esta resposta : “Em ti reside o dever supremo, irmão, querido ; é em ti que toda a Terra encontra apoio ; em ti aninha a glória, herói dos grandes braços, de valentia sem medida. Os soberanos do Mundo, tais os Imortais Prajapati, te consideram todos assim como nós, o protetor poderoso do Universo. Os filhos te olham como a um pai, Ó valoroso príncipe ! Hás chegado a ser a salvação da Terra e também dos seres vivos, Raghava. Como poderias tu, Senhor, cumprir um sacrifício deste gênero, em que aparece a exterminação em este mundo das raças principescas ? Estes guerreiros, Oh rei !, que chegam a ser heróis na Terra, seria sua destruição total e isto causa a universal reprovação. Oh tigre os guerreiros ! Oh tu que por causa de tuas virtudes não tens igual em quanto ao poder, não destruas o Mundo, que te está submetido inteiramente !”
Quando ouviu a Bharata falar deste modo, suave como o amrita, Rama, herói leal, sentiu uma alegria sem igual. E deu esta resposta àquele que aumentava a felicidade de Kaikeyi : “estou contente, estou encantado com o quê acabas de dizer, Ó herói irreprovável ! Estas palavras firmes, conforme o dever, que proferistes, Ó tigre dos heróis!, são a salvaguarda da Terra. O propósito que eu tinha de proceder ao grandíssimo sacrifício do rajasuya, a ele renuncio graças a teu excelente conselho, Ó virtuoso Bharata ! Um ato prejudicial ao Mundo, os sábios não devem realizá-lo ; por outro lado, uma boa palavra ainda que vinda de uma criança, sabe-se acolhê-la, Ó irmão maior de Lakshmana ! Por conseguinte, sigo teu conselho, que é bom, que é judicioso Ó valoroso príncipe.” O épico então conta a história de Vrtra e do sacrifício do cavalo, o ‘aswamedha’ que então realizam no lugar do ‘rajasuya’.
O principal contudo é a atualidade do tema no Evangelho de s. João 2-3, onde o evangelista fala da primeira Páscoa de IHS em Jerusalém, fala de IHS virando a mesa, quebrando a casa toda, da purificação pela água e pelo fogo, do nascer de novo uma segunda vez, do filho do homem que desceu do céu, da serpente regeneradora, etc :
Estando próxima a Páscoa dos judeus, IHS subiu a Jerusalém, no templo encontrou os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados. Tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do Templo com as ovelhas e com os bois ; lançou ao chão o dinheiro dos cambistas e derrubou as mesas e disse aos que vendiam pombas : “Tirai isto daqui ; não façais da casa do meu pai uma casa de comércio.” Recordaram-se seus discípulos do que está escrito : ‘O zelo por tua casa me devorará’ [ Elias perseguido cf. Livro dos Reis ].
Os judeus interpelaram-no dizendo : “Que sinal nos mostras para agires assim ?” Respondeu-lhes IHS : “Destruí este templo e em três dias euo levantarei.” Disseram-lhe os judeus : “Quarenta e seis anos foram precisos para construir este templo e tu o levantarás em três dias ?” ele porém falava do templo do seu corpo. Assim quando ele ressuscitou dos mortos seus discípulos lembraram de que dissera isto e creram na Escritura e na palavra dita por IHS.
Nicodemos vai à noite até IHS e este lhe diz : “Se após a primeiras angústias de um segundo nascimento o homem mortal não é engendrado uma segunda vez ele não pode ver o reino eterno da corte celeste.” Nicodemos manifestou sua surpresa ; “Como após a velhice com cabelo branco um homem pode sofrer a provação de um novo nascimento ?” IHS para ensiná-lo respondeu :
Se o homem purificando seu corpo por banhos regeneradores não recebe do Espírito divino e da água uma segunda e nova origem, imagem espiritual do nascimento que tem da mulher, este homem não pode conhecer a celeste recompensa preparada na eternidade sem fim. Pois tudo aquilo que possui entranhas humanas sobre a terra, criado por uma carne mortal, é carne humana ; mas aquele que é divino, purificado pela água do banho no Espírito nascido de si-mesmo ( autogonoio ), é espírito vivificante e por uma lei fora da geração, torna-se germe espontâneo [ o núcleo da imortalidade ] de um novo nascimento. Não vos espanteis deste mito inspirado por Deus, quando vos digo que é necessário recomeçar a carreira da vida pela renovação da Água. O Espírito que se agita sob um esforço invisível, sabe soprar onde ele quer e vós escutais de perto o barulho de sua voz, a quem Deus faz atravessar os ares para chegar a suas orelhas ; mas seus olhos não percebem nem de onde ela vem, nem para onde ela vai. Tal é a imagem de todo homem que o Espírito há engendrado por uma chama líquida e não por um grão de poeira.” Ele disse e Nicodemos respondeu : “ Como tudo isso ode ser ?” E XTO replicou com seu oráculo divino ( theskelon omphén ) : Sois mestre em Israel e ignoras isto ?! O sentido vos escapa e vós não sabeis mais o que quero dizer. Em verdade, em verdade ( amén, amén ) recebeis ainda este sólido testemunho : aquilo que sabemos ser a verdade cheia de divinos oráculos ( omphés ) falamos alto e semeamos de nossos lábios verídicos nos ouvidos rebeldes dos seres humanos ( ouata dysmaka photon [ photo, luz, serve em grego para designar o ser humano, como um fogo uma casa nos tempos coloniais ; ouata é igual a ouvido ]). Ora tudo aquilo que meus olhos viram no meu Pai, o mestre dos céus, nós ensinamos por uma palavra que tem ciência e é digna de fé. Mas o espírito intratável dos mortais indóceis não recém meu testemunho fiel ; e se, quando disser qualquer coisa das vãs obras terrenas seus ouvidos permanecem totalmente incrédulos, vosso espírito inexperiente acreditará quando escutar falar dos elementos celestes e invisíveis, se contar do exército que voa e das obras do céu ? Jamais mortal pisou com seus pés aéreos os inacessíveis contornos dos céus, senão o divino filho único do homem, que desceu do alto, sua morada, para encadear sua forma imortal à carne, ele que reside no palácio estrelado de seu Pai e habita o firmamento eterno ( aiônios ethéra ). E como na beira do caminho sobre uma rocha deserta Moisés elevou a serpente maléfica aos humanos ( óphin delémona photôn [ novamente photo igual a ser humano ; ophin, ofídio ] ) que o havia mordido e a colocou em uma forma fictícia em anéis de bronze, assim o filho do homem é o mortal, a serpente, exaltado deve aparecer a face humana, para acalmar os sofrimentos maus que os consomem, afim de que aquele que o recebe na condição de uma fé sincera, goze da paz da vida que será a glória humana no curso da eternidade indestrutível ( ou longas barbas enroladas na eternidade inabalável ).
Pois o rei dos céus amou este mundo inconstante e diverso ao ponto de dar ao universo inteiro o Verbo seu filho único, benfeitor dos mortais, afim de que aquele que o receber, renunciando a mobilidade da sua crença e curvando voluntariamente sua cabeça sob uma inabalável fé, entre no coro eterno da vida celeste e habite uma casa imperecível na floresta do paraíso. Não, Deus não deu ao mundo o verbo filho do pai para julgar o mundo antes do tempo mas para ressuscitar ( anastéseie ) a raça humana toda inteira que sucumbia. Assim pois aquele que o apazigua pela submissão de um coração constante e que jogando aos ventos dos ares sua incredulidade cega, se fortalece na fé, não é julgado ; mas aquele que tendendo ( titaínon ) para a carne humana um olhar de razão esfacelada, ousa abrir a boca para se opor a Deus, este é julgado, porque não admitiu a fé em sua alma rebelde a persuasão e que não há mudado de pensamento, nem crido no nome do rei bem amado, filho altíssimo de deus pai. Tal é a sentença que mereceu já antes este mundo inato. Pois a luz ( phéggos cf. pháos, phaíno ) veio do céu para a terra e a geração volúvel dos homens preferiu a obscuridade a seu brilho ; esta raça desejou menos a luz que as trevas porquê suas obras são equívocas. Todo homem, em efeito, que comete iniquidades dignas da noite, odeia voluntariamente a luz e não anda nunca para ou ao seu lado, temendo que sua luminosidade revele as obras que realizou, dissimulando-as sob um misterioso silêncio. Aquele ao contrário que se consagra todo inteiro e sinceramente à verdade avança por si mesmo para manifestar os atos que executa pela vontade de Deus.”



Bibliografia :

Paraphrase do evangelho de s. João por Nonnos de Panopolis, ( primeira edição 1861 ) reimpressão 2016, facsimile publishers, Delhi, Índia.

Delcourt, Marie, Pyrrhos et Pyrrha, recherches sur les valeurs du feu dans les légendes helleniques, 1965, Paris, Les Belles Lettres.

Ananda Coomaraswamy, “Angel and Titan”, “The dark side of the dawn”, “Sir Gawain and the green knight : Indra and Namuci”, em ‘La Doctrine du Sacrifice’ ( trad. Gerard Leconte ), Éditions Dervy, Paris, 1997.
-------------, “Atmayajña : self-sacrifice”, “Svayamatrnna : Janua Coeli”, “The symbolism of the Dome” em ‘The door in the sky’, Princeton University Press, 1997, N. Jersey.
---------------, “Notes on the Katha Upanishad” em ‘Perception of the Vedas’, Manohar, Delhi, India, 2000.
-----------------, Some Pali Words, Harvard Journal of Asiatics Studies.
Sófocles, Filoctetes, Aguilar, Madrid, 1978.
J.-P. Vernant e P. Vidal-Naquet, O Filoctetes de Sófocles e a efebia em ‘Mito e Tragédia na Grécia Antiga’, Livraria Duas Cidades, SP, 1977.
Gagé, Jean, Pyrrhus et l’influence religieuse de Dodona dans l’Italie primitive ( 4 artigos), Revue de Histoire des Religions / RHR, 1954, 1955, Paris.

Pausanias, Guide to Greece, ( trad. Peter Levi ), Penguin Books, 1971, England.

Harrisson, Jane Ellen, ‘Themis’, Meridian Book, 1969 ( pr. ed. 1912 ), New York.
Jeanmaire, Henri, ‘Couroi et Courètes’, Bibl. Universitaire, Lille, 1939.
René Guénon, Le symbolisme de la croix, Les éditions Vega, Paris, 1957.
--------------, O rei do mundo, Edições 70, Lisboa.

Plutarco, Vida de Pirro, em Biografos Griegos, Aguilar, Madrid.

Satapatha Brahmana, SBE ( Sacred Books of the East ) vols 12, 26, 41, 43 e 44,
Atlantic Publishers, New Delhi, 1990.




sexta-feira, 23 de junho de 2017

503 Buddha Papagaio Pupphaka




503
Em grande hoste...etc.”- Esta história o Mestre contou quando alojava-se no bosque do cervo Maddakucchi, sobre Devadatra. Quando Devadatra jogou uma pedra e um fragmento dela cortou o pé do Abençoado, houve grande dor nisto. Numerosos Irmãos reuniram-se para ver o Tathagata. Quando o Abençoado viu o Povo reunido, disse a eles, “Irmãos, este lugar está cheio : haverá uma grande aglomeração. Vamos agora, carreguem-me numa liteira para Maddakucchi.” Assim então os Irmãos fizeram. Jivaka curou o pé do Tathagata. Os Irmãos sentados diante do Mestre falavam sobre isto : “Senhores, Devadatra é pecador e pecadores são todos do seu povo ; o pecador acompanha o pecado.” O Mestre perguntou, “O quê estão conversando Irmãos ?” Eles disseram. Ele disse, “Foi assim antes e esta não é a primeira vez que Devadatra o pecador acompanha o pecado.” Então contou-lhes uma história do passado.
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Certa vez, um rei chamado Pañcala reinava na cidade de Uttara-Pañcala. O Grande Ser nasceu como o filho do rei dos Papagaios, em um bosque de paineiras que crescia no alto planalto no coração da floresta : eram dois irmãos. Subindo esta montanha havia uma vila de ladrões, onde habitavam quinhentos ladrões : ao seu sopé estava um eremitério com quinhentos sábios.
Na estação em que os papagaios estavam trocando as penas um remoinho de vento carregou um dos papagaios e ele caiu na vila de ladrões nomeio das armas dos ladrões : e porque caiu lá, eles o chamaram Sattigumba ou Lança assobiante. O outro papagaio caiu no eremitério entre as flores que cresciam num lugar arenoso devido ao que o chamaram Pupphaka, Pássaro flor. Sattigumba cresceu entre os ladrões, Pupphaka com os sábios.
Um dia o rei em bravos arreios, à cabeça de uma grande companhia, dirigiu sua carruagem esplêndida para caçar o cervo. Não distante da cidade, ele entrou em um bosque bonito com uma rica colheita de flores e frutos. E disse, “Se alguém deixar o passar a seu lado, responderá por isto !” Então ele desceu da carruagem e se cobriu, de pé, arco nas mãos na cabana designada para ele. Os batedores bateram os arbustos para começar o jogo. Um antílope levantou-se e procurou uma saída ; ele viu um vazio ao lado do rei, passou por ele e escapou. Todos perguntaram quem deixou o antílope passar. Foi o rei ! Escutando isto ele foram e fizeram piada dele. O rei em sua auto estima não tinha estômago para a brincadeira. “Agora pegarei o cervo !” gritou ele e subiu na carruagem. “Toda velocidade !” ele disse para o auriga e saiu perseguindo o cervo. Tão rápido foi o rei que os outros não conseguiram acompanhá-lo : rei e auriga, estes dois sozinhos, continuaram até o meio-dia mas não encontraram o cervo. O rei então retornou ; e vendo próximo à vila dos ladrões uma clareira aprazível, desmontou, banhou-se e bebeu e saiu do rio. Então o auriga trouxe um tapete da carruagem e o abriu debaixo da sombra de uma árvore ; o rei deitou nele, o auriga sentou a seus pés, esfregando-os : o rei cochilava e acordava. O Povo da vila dos ladrões, todos ladrões mesmo, tinham saído para a floresta para presenciar o rei : assim na vila não ficou ninguém a não ser Sattigumba e o cozinheiro, um homem chamado Patikolamba. Naquele momento Sattigumba saindo da vila e vendo o rei pensou, “E se matássemos aquele sujeito lá que dorme e tomássemos seus ornamentos !?”
Então ele retornou para Patikolamba e contou-lhe tudo a respeito.
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Para explicar isto o Mestre recitou cinco estrofes :

Com uma grande hoste o rei de Pañcala saiu para caçar o cervo ;
Fundo na floresta extraviou-se o monarca e próximo ninguém havia.

Olhem, dentro da floresta ele vê um abrigo que ladrões fizeram,
Sai um Papagaio e em seguida esta cruéis palavras pronuncia :-

Um jovem dirigindo um carro, com joias muitas,
E em seu cenho uma coroa dourada brilha vermelha como o Sol !

Ambos rei e auriga dormem lá em pleno meio-dia :
Venha vamos espoliá-los de seus bens e levá-la rápido embora !

Está quieto como na profunda meia-noite : ambos rei e auriga dormem :
Seus bens e joias peguemos e guardemos,
Matemo-los e empilhemos galhos em cima numa pilha.

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Assim falou, o homem saiu e olhou e vendo que era o rei amedrontou-se e recitou esta estrofe :

Por quê Sattigumba, estás louco ? Que palavras são estas que escuto ?
Reis são como fogueiras em chamas e muito perigosos de se aproximar.

O pássaro respondeu em outra estrofe :

Fala de tolo, Patikolamba, esta ; e tu és doido, não eu :
Minha mãe nua ; por quê desprezar a vocação de que vivemos ?
[ a glosa, escoliasta, lembra aqui que a mãe nua significa que está vestida apenas com roupas de ramos d’árvore conforme hábito de lá e então ]

Acorda o rei agora e escutando conversarem na linguagem humana percebendo o perigo recita a seguinte estrofe para acordar seu auriga :

Levante-se rápido amigo auriga e atrele a carruagem :
Busquemos outro abrigo já que não gosto deste papagaio.

Ele levantou-se rápido e colocou a parelha, junta, e então recitou uma estrofe :

O carro está atrelado, Ó poderoso rei, atrelado e pronto ali :
Ponha o pé dentro, Ó Rei ! E vamos buscar abrigo em outro lugar.

Logo que estava dentro, voaram fora rápidos como o vento os puro-sangues. Quando Sattigumba viu a carruagem partindo, tomado de excitação repetiu duas estrofes :

Onde foram todos os companheiros que assombram este lugar ?
Pañcala foge embora, saindo porque não o viram.

Sairá à vontade com vida ? Peguem lança, arco. Azagaia :
Olhem, Pañcala foge ! Ó não deixem ele fugir !

Assim ele esbravejava, agitando-se para cá e para lá : enquanto isto no devido curso o rei chegou no eremitério dos sábios. Naquela hora os sábios tinham todos ido catar raízes e frutos e somente o Papagaio Puppha [ sic ] foi deixado no eremitério. Quando viu o rei, foi encontrá-lo e dirigiu-se com cortesia.
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Então o Mestre recitou quatro estrofes para explicar :

O papagaio com seu bico vermelho cortes e corretamente disse,
Bem-vindo, Ó Rei ! Bonne chance te dirige direto para cá !
És poderoso e glorioso : que errância te traz aqui, prego ?

Folhas de ‘tindook’ e de ‘pyal’ e doce ‘kasumari’,
Apesar de pequenas e poucas, pegue o melhor que temos, Ó Rei, e coma.
[ Glosa: Diospyros embryopteris e Buchanania latifolia são nomeados.]

E esta água fria de uma cova alta escondida na montanha,
Ó poderoso monarca, tome dela, beba, se for tua vontade.

Estão todos catando na floresta aqueles que querem viver aqui :
Levante-se, Ó Rei, e pegue : não tenho mãos para oferecer.

O rei agraciado com as corteses palavras, respondeu com um par de estrofes :

Nunca houve um papagaio engaiolado tão bom ; um pássaro bastante correto :
Mas o outro papagaio de lá falou muitas palavras cruéis.

Ó, não deixem-no ir embora vivo, Ó venham e matem ou amarrem !’
Ele gritava : busco este eremitério e segurança aqui encontro.

Assim respondeu o rei, Puphaka pronunciou duas estrofes :

Somos irmãos, Ó poderoso Rei, alimentados por uma mesma mãe,
Criados ambos juntos na mesma árvore, alimentados em pastos diferentes.

Pois Sattigumba foi para os ladrões, eu vim para os sábios ;
Aqueles ruins, estes bons e daí que nossos modos não são os mesmos.

Ele então explicou as diferenças em detalhes, repetindo um par de estrofes :

Lá feridas e laços, traição, engano e mesquinharia giram,
Assaltos e atos de violência : tal o ensino que aprendeu.

Aqui auto-controle, sobriedade, gentileza, o reto e o verdadeiro,
Abrigo e bebida para os estranhos : estavam ao meu redor enquanto cresci.

Em seguida declarou a Lei para o rei nas seguintes estrofes :

A quem quer que, bom ou mau, uma pessoa preste honras,
Viciado ou virtuoso, esta pessoa o segura abaixo de suas tendências.

Como um camarada que alguém admira, como um amigo escolhido,
Tal se tornará a pessoa que mantém a seu lado, no fim.

Amizade faz o semelhante, e toque infecta toque, descobrirás isto verdadeiro :
Envenene a flecha e não muito depois a aljava estará envenenada também.

O sábio evita má companhia, por temer o toque infectado :
Envolva peixe estragado em gordura e logo a gordura federá tanto quanto.
E aquele que mantém companhia do tolo, tal se tornará logo.

Doce incenso envolvido com folha, a folha vai cheirar doce igual.
Igualmente logo crescerão sábios aqueles que sentam aos pés dos sábios.

Por esta similitude o sábio deve conhecer seu próprio benefício,
Que ele evite má companhia e com os retos caminhe :
Céu espera o reto mas o ruim está destinado ao ínfero abaixo.

O rei ficou agraciado com esta exposição. Então os sábios retornaram também. O rei saudou-os dizendo, “Sejam gentis senhores e venham e tomem residência nos meus terrenos, e persuadiu-os a aceitarem o convite. Quando ele chegou em casa novamente, proclamou imunidade a todos os papagaios. Os sábios foram lá também e o visitaram. E o rei lhes deu seu parque para que vivessem e cuidou deles enquanto viveu. Quando ele foi preencher as hostes celestes, seu filho teve o parassol real aberto sobre si e ele também cuidou dos sábios e e assim seguiu por sete gerações de reis todos bondosos em ofertas. E o Grande Ser morou na floresta até que passou de acordo com seus atos.

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Quando esta lição estava terminada, o Mestre disse, “Assim Irmãos vocês vejam que Devadatra manteve má companhia antes como mantém agora.” Então ele identificou o Jataka : “Naquele tempo Devadatra era Sattigumba, seus seguidores eram os ladrões, Ananda era o rei, os seguidores do Buddha eram os sábios e eu mesmo era o Papagaio Pupphaka.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

502 Buddha Ganso Dourado





             ( Pintura de Ajanta com a reprodução em desenho de Monika Zin ; note-se no canto o caçador carregando os dois pássaros na vara de levar coisas ; clique na imagem para vê-la ampliada )

502
Lá vão os pássaros...etc.” - Esta história o Mestre contou enquanto residia no Bosque de Bambu sobre a renúncia à vida por Ancião Ananda. Então os Irmãos também estavam conversando no Salão da Verdade sobre as boas qualidades do Ancião, quando o Mestre entrou e perguntou-lhes o quê falavam lá sentados. Ele disse, “Esta não é a primeira vez, Irmãos, que Ananda renunciou sua vida por mim mas ele fez o mesmo antes.” E então ele contou-lhes uma história do passado.
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Certa vez reinava em Benares um rei chamado Bahuputtaka, ou Pai de muitos filhos e sua Rainha Principal era Khema. Naquele tempo o Grande Ser morava no Monte Cittakuta e era o chefe de noventa mil gansos selvagens, tendo vindo à vida como um ganso dourado. Naquele tempo, como já foi dito, a rainha teve um sonho, e contou ao rei que concebeu o desejo feminino de ouvir o discurso do Ganso Dourado sobre a Lei. Quando o rei questionou se haviam tais criaturas como gansos dourados, lhe foi dito que sim, havia no Monte Cittakuta. Então ele construiu um lago que chamou de Khema e fez com que se plantasse todo tipo de milho e diariamente nos quatro cantos se proclamava imunidade e enviou um caçador para pegar gansos. Como esta pessoa foi enviada, sua observação dos pássaros, como novidades foram contadas ao rei quando os gansos dourados chegaram, a maneira como a armadilha foi montada e o Grande Ser pego nela, como Sumukha capitão chefe dos gansos não o viu nas três divisões de gansos e retornou, tudo isto será estabelecido no Jataka 534 ( onde o nome de Dhatarattha também é dado ao Grande Ser ). Bem, como então o Grande Ser foi pego no laço e na armadilha e quando estava mesmo pendurado no laço na extremidade da armadilha , ele esticou o pescoço olhando o caminho que os gansos tomaram e percebendo Sumukha enquanto ele vinha, pensou, “Quando ele chegar vou colocá-lo em teste.” Então quando ele chegou, o Grande Ser repetiu as três estrofes :

Lá vão os pássaros, os gansos vermelhos, todos tomados de medo :
Ó dourado Sumukha, parta ! Que queres aqui ?

Meus amigos e parentes me largaram, todos voaram para longe,
Sem pensar voaram embora : por quê só você ficou ?

Voe, nobre pássaro ! Com prisioneiros não pode haver amizade :
Voe, Sumukha ! Não perca a chance enquanto ainda podes ser livre.

Ao o quê Sumukha respondeu, pousando na lama -

Não, não te deixarei, Ganso Real, quando problema se aproxima :
Mas permanecerei e a seu lado viverei ou morrerei.

Assim falou Sumukha, em tom leonino ; e Dhatarattha respondeu com esta estrofe:
Um coração nobre, bravas palavras são estas, Sumukha, que dizes :
Foi apenas para te testar que te mandei voar de volta.

Enquanto estavam assim conversando juntos, sobe o caçador cajado nas mãos para o topo a toda velocidade. Sumukha encoraja Dhatarattha e voa para encontrar o homem, respeitosamente declarando as virtudes do pássaro real. Imediatamente o coração do caçador amoleceu ; o quê, percebendo Sumukha, o faz voltar e permanecer encorajando o rei dos gansos. E o caçador aproximando-se do rei dos gansos, recitou a sexta estrofe :

Pisam nele por caminhos que não se pisa, pássaros voando no céu :
E você, Ó nobre Ganso, não espreitou de longe a armadilha ?

O Grande Ser disse :

Quando a vida está chegando ao fim e a hora da morte se aproxima,
Apesar de você estar em cima, nem armadilha nem laço você vê.
( este gatha, verso, aparece nos Jatakas 164 e 399 )
O caçador, feliz com a colocação do pássaro, então falou três estrofes para Sumukha.

Lá vão os pássaros, os gansos vermelhos, todos tomados de medo :
E você, Ó ave dourada, ainda está parada esperando aqui.

Eles comem e bebem, os gansos vermelhos : despreocupados eles voaram ;
Dispararam através dos ares e você foi deixado só.

O quê é esta ave, que enquanto o resto deixando-o voou
Apesar de livre, você se junta ao prisioneiro – por quê ficaste só ?

Sumukha respondeu :

Ele é meu camarada, amigo e rei, querido como minha vida ele é :
Abandoná-lo – não, nunca o farei, até a morte me chamar.

Escutando isto o caçador ficou muito agraciado e pensou consigo mesmo - “Se eu machucar criaturas virtuosas como estas, a terra abriria e me engoliria. Que me importa o prêmio do rei ? Os colocarei em liberdade.” E ele repetiu uma estrofe :

Vendo agora que pelo bem da amizade estás preparado para morrer,
Liberto teu rei e camarada, para te seguir em voo.

Isto dito, ele jogou para baixo Dhatarattha da armadilha e soltou o laço e o levou para a margem e piedosamente lavou seu sangue e recolocou os músculos e tendões deslocados. E em razão da gentileza de seu coração e pelo poder das Perfeições do Grande Ser, no mesmo instante sua pata ficou curada e nem marca ficou no lugar que foi pego. Sumukha contemplou o Grande Ser com alegria e agradeceu com estas palavras :

Com todos seus parentes e amigos, Ó caçador, seja feliz,
Como estou feliz vendo o Rei dos pássaros livre.

Quando o caçador escutou isto, ele disse, “Agora você deve partir amigo.” Então o Grande Ser disse a ele, “Você me capturou para fins próprios, meu bom senhor, ou devido a ordens de outro ?” Ele contou-lhes os fatos. O outro ponderou se era melhor retornar para Cittakuta ou ir até a cidade. “Se eu for até a cidade,” ele pensou, “o caçador será premiado, o desejo da rainha será realizado, a amizade de Sumukha será conhecida, e também pela virtude de minha sabedoria receberei o lago Khema, como presente. É melhor portanto ir até a cidade.” Isto estabelecido, ele disse, “Caçador, leve-nos na sua vara de levar coisas até ao rei e ele me libertará se quiser.” - “Meu senhor, reis são duros ; sigam seus caminhos.” - “O quê ? Apaziguei um caçador como você e e não encontraria favor em um rei ? Deixe isto comigo ; sua parte, amigo, é transportar-nos até ele.” O homem fez isto.

Quando o rei colocou seus olhos nos gansos ele ficou deliciado. Colocou ambos num poleiro dourado, deu-lhes mel e grãos fritos para comer e água adocicada para beber e com as mãos postas em súplica pediu-lhes que falassem da Lei. O rei dos gansos vendo quão ansioso ele estava para escutar, primeiro dirigiu-se a ele em palavras agradáveis. Estas são as estrofes expressando a conversa do rei e do ganso um com o outro.

Tem sua excelência, saúde e riqueza e o reino cheio
De bem-estar e prosperidade e justamente legislado ?

Ó aqui temos saúde e riqueza, Ó Ganso, e aqui reino cheio
De bem-estar e prosperidade e justa e retamente legislado.

Não há mancha à vista no meio da tua corte e estão teus inimigos
Distantes, como a sombra no sul, que nunca cresce ?

Não há mancha à vista no meio dos meus cortesãos e meus inimigos
Distantes como a sombra no sul, que nunca cresce.

E tua rainha de linhagem igual, obediente, melíflua,
Fértil, bonita, famosa, acompanha seus desejos, realizando cada um ?

Ó sim, minha rainha de linhagem igual, obediente, melíflua,
Fértil, bonita, famosa, acompanha meus desejos, realizando cada um.

Ó legislador criador ! Tens filhos muitos, nobremente criados,
Espertos, homens fáceis de agradar em qualquer coisa que sejam enviados ?

Ó Dhatarattha ! Filhos tenho de fama, cinco e mais um :
Diga-lhes seus deveres : não deixaram seu bom conselho desfeito.

Escutando isto, o Grande Ser deu-lhes conselhos em cinco estrofes :

Aquele que adia até muito tarde o esforço de fazer o bem,
Apesar de nobremente criado, com virtude dotado, ainda assim afunda debaixo da correnteza.

Seu conhecimento murcha, grande perda a sua ; como a cegueira noturna
Vê todas as coisas cheias duplamente em seu tamanho com a visão imperfeita.

Quem vê a verdade em falsidade não ganha sabedoria nenhuma,
Como em um caminho montanhoso escarpado o cervo frequentemente cairá.

Se um homem corajoso qualquer ama virtude, segue o correto,
Então mesmo um casta baixa, ele queima como fogueira na noite.

Usando esta similitude explique todas as verdades da sabedoria,
Cuidando de seus filhos até crescerem sábios, como árvore nova na chuva.

Assim o Grande Ser discursou para o rei toda a noite. O desjo da rainha foi apaziguado. Àurora ele o estabeleceu nas virtudes dos reis e o exortou a ser vigilante, então com Sumukha voou para fora pela janela norte a caminho do Cittakuta.

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Após este discurso, o Mestre disse, “Assim, Irmãos, este homem ofereceu sua vida por mim antes,” e então ele identificou o Jataka : “Naquele tempo Channa era o caçador, Sariputra o rei, uma irmã era a Raninha Khema, a tribo Sakiya era o bando de gansos, Ananda era Sumukha e eu mesmo o Rei Ganso.”