quarta-feira, 20 de setembro de 2017

[ n. do tr.: Nícias = Shiva ]


Nícias = Shiva

Nícias fez a Paz ; a paz de Nícias ficou famosa para sempre, paz política em sentido amplo posto que sua ‘Vida de Nícias’ de Plutarco espanta-se no começo e no fim com o fato de ter morrido na guerra ( a maior guerra que já houve de gregos contra gregos ) a qual foi contra todo tempo mas eleito pelo Povo para chefiá-la não o/a desobedece, às ordens da polis, república e acaba sacrificado. A imagem é a mesma do sacrifício de Daksha que exclui Shiva e acaba não realizando-se, destruindo-se por completo antes de acontecer. Os paralelos entre Plutarco e os Puranas são vários.

Vejamos o capítulo V da Vida de Nícias de Plutarco : “Vivendo sempre com temor dos caluniadores não jantava, ceiava, com nenhum dos cidadãos, nem tratava com eles, nem assistia suas ordinárias recreações ; em uma palavra : não gostava de semelhantes passatempos, antes, quando era arconte, permanecia no consistório até a noite e do Senado era o último a sair, sendo o primeiro a entrar ; e quando não tinha negócio público algum, não recebia ninguém nem saía para ser visto, sempre quieto e fechado em casa. Seus amigos recebiam aos que vinham para falar-lhe, lhes pediam desculpas porque estava ocupado em negócios públicos de grande urgência e importância. Aquele que principalmente representava esta farsa e mostrava grande interesse em conciliar-lhe autoridade e opinião, era Hierón que havia se exercitado na música e nas letras. Era filho de Dionísio, a quem apelidaram Calco e de quem se conservam ainda algumas poesias e que enviado comandante de uma colonia na Itália fundou a cidade de Turios ( atual Torre Brodognato ). Este pois tratava com os agoureiros da parte de Nícias na interpretação de prodígios e dos arcanos e fazia correr pelo Povo a voz que Nícias levava, apenas pelo bem da cidade / polis / república, uma vida infeliz e trabalhosa, pois nem no banho nem na mesa deixava de ocorrer-lhe assuntos graves, tendo abandonado os interesses próprios para cuidar dos do Povo ; tanto que nunca deitava senão quando os demais já tinham dormido o primeiro sono. De onde provinha estar sua saúde quebrantada e não ter gosto nem humor para conversar com seus amigos, tendo chegado a perdê-los pelos negócios públicos, junto com sua renda ; enquanto os demais, ganhando amigos e enriquecendo com as magistraturas, passam muito bem e se divertem no governo. E em realidade, de verdade, tal vinha a ser a vida de Nícias, pelo que ele mesmo se aplicou aquele epifonema de Agamemnon : ‘A majestade preside nossa vida ; mas da multidão somos escravos’.”

Há algo semelhante no Shiva Purana ? Há. Quando Kama, o desejo, a diversão, o cupido, dispara flechas para atingir o grande Yoguin em meditação ( Shiva é o pai da Yoga ) ( pg. 544 ) : seu terceiro olho abre-se e transforma Kama em cinzas com um fogo que depois dirige-se para o mar : daí o ritual de beber água do oceano. O terceiro olho prescrutando, intuindo, a realidade espiritual única do momento presente relaciona-se então com o entendimento dos ‘prodígios e arcanos’.

Por outro lado no Shiva Purana ( pg. 395 ) é dito “Sati e Shiva estão unidos juntos como palavras e seu significado. Apenas se desejarem pode sua separação
ser mesmo imaginada.” Sati é a oblação, a doação e devota de Shiva ; mas seu pai, Daksha, a seção sacrifical, exclui seu esposo da cerimônia, o quê causa a
destruição completa do sacrifício posto que Sati vai, mesmo sem ser convidada e diante da ignorância do pai, senta concentrada em meditação e auto imola-se, por força própria, sua energia mesma concentrada na respiração, coloca fogo em si mesma, incendeia-se em auto combustão, para renascer em outro ventre em seguida, ventre de Mena, deixando, largando, aquele corpo e seu pai.

Haveria uma tal separação da palavra e seu significado em Nícias ? Haveria no cap. VII e VIII que trata de Cleón, inimigo de Nícias que quer a guerra para mortificá-lo, diminuí-lo, ele que quer a paz. “Em verdade se fez notável dano a cidade deixando que adquirisse Cleón tanto crédito e poder, com o quê, tomando novo arrojo e ousadia insuportável, entre outros males que acarretou a república, ele fez destruir o decoro da tribuna, sendo o primeiro que nos discursos, arengas, gritou descompassadamente, se deixou aberto o manto, se golpeou as coxas e introduziu dar corridas estando falando ; no que engendrou nos que depois dele manejaram os negócios um absoluto esquecimento e desprezo de toda a dignidade ; causa principalíssima do transtorno e confusão que dali a pouco sobreveio à República.”

Haveria também no cap. XI onde se disserta sobre o fim do ostracismo : “Estavam Nícias e Alcebíades no mais forte de sua discórdia quando houve que tratar-se de desterrar pelo ostracismo segundo costume recebido de que em certo tempo devia o Povo mudar de país por dez anos a um dos que fossem suspeitos, ou por que causavam inveja por seu grande crédito ou por sua riqueza. Estavam ambos em grande agitação e perigo posto que não podia deixar de ser um dos dois a receber o desterro. Porque em Alcebíades vituperavam seu abandono de conduta e temiam sua ousadia e em Nícias, além de vê-lo com inveja por causa de sua riqueza, culpavam o ar pouco afável e popular, ou então intratável e oligárquico que o fazia parecer de outra espécie ; e como rejeitava muitas vezes os desejos do Povo, contradizendo seu modo de pensar, violentando-o de certa maneira, fazia o que acreditava conveniente, mas tornou-se para ele odioso. Em uma palavra : a contenda era dos jovens e amigos da guerra contra os anciãos e amantes da paz, querendo uns que a concha [ a célula eleitoral grega era uma concha ] caísse sobre este e os outros sobre aquele. ‘Mas se dois se altercam por uma honra, não é novidade que recaia sobre um terceiro.’ Também nesta ocasião dividido o Povo entre os dois, deu motivo a que se apresentasse na palestra homens sem vergonha e corrompidos, entre os quais Hipérbolo Peritoide, homem a quem não foi o poder que deu atrevimento mas por ser atrevido passou a ter poder, e de ter adquirido fama na cidade por sua afronta e infâmia. Este pois considerando-se muito distante do castigo das conchas quando o que verdadeiramente o que lhe cabia era um potro, esperava que caindo em qualquer daqueles, ele seria o rival do que ficasse ; assim se via bem as claras que se alegrava com a divisão e abertamente acalorava o Povo contra ambos. Inteirados Nícias e Alcibíades desta maldade, se puseram secretamente de acordo e juntando em um os dois partidos, conseguiram que o ostracismo não caísse em nenhum deles mas sobre Hipérbolo. No começo foi esta mudança matéria de diversão e riso para o Povo ; porém depois sentiram parecendo-lhes que aquele recurso se tinha desonrado, usando-o com um homem indigno pois tinha o ostracismo por uma pena que honrava e acreditavam que, se era castigo para Tucídides, Arístides e semelhantes, para Hipérbolo era uma honra e motivo de jactância que fosse tratado por sua maldade como haviam sido os varões mais excelentes ; segundo o que já disse Platón, o cômico, falando dele nestes versos : ‘Por sua maldade mereceu esta pena ; mas por sua qualidade, dela era indigno : porque não se inventou seguramente o ostracismo para um canalha tão ruim.’ Assim é que depois de Hipérbolo ninguém mais sofreu esta forma de desterro mas ele foi o último, tendo sido o primeiro Hiparco Colargueo, parente do tirano.”

Shiva Purana ( pg 380s ) há um discurso de Shiva sobre a piedade, devoção e desapego como princípios do conhecimento, em um diálogo com Sati, sua esposa :
12. Ó deusa Sati, escute, devo explicar o grande princípio em que criaturas com remorso tornam-se almas liberadas.
13. Ó grande deusa, saiba que o conhecimento perfeito é o grande princípio – a consciência que ‘sou Brahman’ no intelecto perfeito em que nada mais é lembrado.
14. Esta consciência é bem rara nos três mundos. Ó amada, sou Brahman, o maior dos maiores, e muito poucos são aqueles que conhecem minha real natureza.
15. Piedade, devoção é considerada doadora de prazeres e salvação. É alcançável pela graça. Ela é de nove tipos : escutar, elogiar, lembrar, servir, entregar-se, venerar, saudar, amizade e dedicação.
16. Não há diferença entre devoção e conhecimento perfeito. A pessoa que está absorvida em piedade goza felicidade perpétua. Conhecimento perfeito nunca desce numa pessoa viciada avessa à piedade.
17. Atraído pela devoção e como resultado de sua influência, Ó Deusa, vou mesmo nas casas dos outcasts e dos castas baixas. Não há nenhuma dúvida sobre isto. ...
36. Ó amada, assim a piedade com seus vários membros e auxiliares contribui para a salvação já que produz Desapego ( Vairagya ) e Conhecimento ( Jñana ) perfeitos. É o caminho mais excelente.
37. Uma piedade verdadeira é tão cara para mim quanto para você. Ela é produtora de frutos de todos os ritos para sempre. Aquele que tem isto em mente é um grande amigo meu.
38. Não há outro caminho tão fácil e agradável como a piedade, nos três mundos, Ó deusa dos devas, em todos os quatro Yugas de modo geral e no kaliyuga em particular.
39. Conhecimento ( Jñana ) e Desapego ( Vairagya ) ficaram velhos e perderam seu brilho no kali yuga. Decaíram e gastaram, passaram, já que as pessoas que os consegue perceber são raras.”

O capítulo III e IV da ‘Vida de Nícias’ de Plutarco disserta sobre sua piedade, devoção e desapego :
Enquanto Péricles administrou a cidade, estando dotado de uma virtude verdadeira e de uma poderosa eloquência, não teve necessidade de manhas ou de prestígio ; porém Nícias, que não tinha aqueles dons, abundando em bens da fortuna, com eles ganhava popularidade ; faltando-lhe disposição para rivalizar com a flexibilidade e as lisonjas de Cleón, conseguiu atrair com os coros, os espetáculos e com outros meios desta espécie, o favor do Povo, avantajando-se em magnificência e gosto a todos os de seu tempo e ainda a quantos o haviam precedido. Subsistem ainda das oferendas que fez, o Paládio da acrópole, tendo perdido o dourado, e o templete que se conserva no Templo de Baco entre os trípodes oferecidos em ocasiões iguais ; porque conduzindo coros venceu muitas vezes e em nenhuma foi vencido. Diz-se que em um destes coros apareceu representando no adorno a Baco,um escravo seu de bela disposição e figura, ainda imberbe, e que, tendo-se agradado os atenienses com a presença dele, aplaudindo e festejando por longo tempo, levantando-se Nícias, disse que tinha por sacrilégio estivesse na escravidão um corpo celebrado pela semelhança com o deus e deu liberdade para aquele moço. Também se conservam na memória, como brilhantes e dignos de tão alto objetivo, finalidade, os festejos que fez em Delos. Era comum que os coros enviados às cidades para cantar os louvores de Apolo, durante a navegação, fossem com o quê cada um recolhia e que vindo muita gente na chegada da nave, cantavam sem nenhuma ordem, saltando em terra em confusão e tomando as coroas e os trajes da mesma maneira ; mas ele, quando conduziu a Teoria, aportou em Renea com o coro, as vítimas e todo o prescrito e trazendo de Atenas uma ponte, construída com as dimensões convenientes e adornando magnificamente com dourados, cores, coroas e tapetes, durante a noite os arranjou no espaço intermediário entre Renea e Delos, que não é grande [ n. do tr. Sanz Romanillos : Para a melhor compreensão desta passagem, advertimos que Renea é uma ilha montanhosa ( chamada Megalo-Dilos ou Grande Delos ) e Delos, outra ( denominada Mikro Dilos ou Pequena Delos ), ambas pertencentes as Cíclades, no Mar Egeo. Delos estava consagrada a Apolo. A distância entre as duas é pouco mais de meio quilômetro. Teoria ou Teórida era o nome dado a nave que conduzia o cortejo religioso.]. No dia seguinte ao amanhecer conduziu a procissão que se fazia ao deus e o coro adornado primorosamente e cantando os atravessou pela ponte. Depois do sacrifício, do combate e do festim, apresentou ao deus em oferenda, uma palma de bronze e tendo comprado um terreno por dez mil dracmas, o consagrou, destinando de suas rendas que os de Delos tomassem o necessário para sacrificar e dar um banquete, rogando aos deuses a prosperidade de Nícias. Pois isto fez se escrever numa coluna que deixou em Delos como monumento desta dádiva e a palma, quebrada pelos ventos, veio a cair sobre a estátua grande dos de Naxos ( outra das ilhas cíclades )e a fez em pedaços.
IV. Nestas coisas costuma haver muito de ostentação e de vanglória, como se sabe ; porém observando o caráter e os costumes de Nícias para todo o resto, pode-se, não sem violência, inferir que aquele esmero e toda aquela pompa era consequência de sua religiosidade, porque lhe fazia demasiada impressão, o impressionava, as coisas superiores e era dado a superstição, segundo nos deixou escrito Tucídides. Assim se diz em um certo diálogo de Pasifonte, que todos os dias oferecia sacrifícios aos deuses e que tendo em casa um agoureiro, fingia consultar-lhe sobre as coisas públicas quando regularmente era sobre as suas próprias, especialmente sobre suas minas de prata, porque possuía minas deste metal em Laurio ( monte situado no extremo meridional d’Ática ) que lhe era muito útil ainda que o trabalho não era isento de perigo. Mantinha lá grande número de escravos e nisto consistia a maior parte de sua renda, pela qual tinha sempre ao redor de si muitos que pediam e a quem socorria, pois não era menos dadivoso com os que podiam fazer mal que com os que eram dignos de suas liberalidades ; em uma palavra : com ele era uma renda para os maus, seu medo e para os bons, sua beneficência. Dão disto testemunho os poetas cômicos.”

A imagem da palma caindo, por incrível que pareça, aparece no Shiva Purana justo quando da resolução do conflito entre Brahma e Vishnu ( Aciuta ) ( pg 55s ) em pleno campo de batalha em que os dois deuses jogam armas um no outro, e enfrentam-se com dois exércitos e Shiva aparece na forma de uma coluna de fogo que absorve as armas de ambos – na realidade eles vão até Kailasa e pedem para ele aparecer pois são devotos. Vishnu ( Aciuta ) na forma de Javali cava fundo para ver a raiz da coluna mas não acha, enquanto Brahma na forma de cisne voa para o alto em busca da outra extremidade : é quando encontra uma folha/ flor que cai, que lhe diz que está caindo há muito tempo e que caiu do meio, logo não há fim na altura da coluna e Brahma volta. Shiva acaba pacificando as duas deidades ( as duas tendências ascendente e descendente do universo, yin / yang ), não sem arrependimento inclusive com choro de Vishnu, e ressuscita os guerreiros mortos na guerra ( pg. 62 ). A coluna de fogo é a imagem do Shiva linga que representa a coluna vertebral ereta em meditação e concentração realizando o ideal da Yoga de Livramento, Libertação, bastante semelhante ao Buddhista ; enquanto phalo a coluna de fogo representa seu poder criador, da Yoga mesma e de seus membros : yama, nyama, pranayana, pratiahara, dharana, dhyana, samadhi. Na pg 71 do Shiva Purana fala-se do Gayatri Mantra, Savitri Mantra, em que a coluna de fogo é vista como o Sol, princípio / fim da Vida : ‘nós meditamos na excelente luz do Sol : que ela nos inspire !’ - Gayatri Mantra : deve-se repetir sempre, em devoção, piedade, de manhã ao nascer do Sol, para o Sol ( Cf. Jatakas Buddha Pavão ).

Vejamos o capítulo IX da ‘Vida de Nícias’ de Plutarco, que fala da Paz de Nícias : “ Começava já então a mostrar-se em Atenas Alcibíades ( educado por Péricles e favorecido por Sócrates ), outro orador nãotão decomposto ( quanto Cleón ) porém de quem dizia-se ser como a terra do Egito ; pois como esta, por sua grande fertilidade, produz ‘muitas plantas úteis e a seu lado outras tantas nocivas e funestas’, da mesma maneira a índole de Alcibíades, propensa igualmente ao bem como ao mal, deu ocasião a grandes inovações. Porquanto, ainda que Nícias chegou a ver-se desembaraçado de Cleón, não teve tempo de acalmar e firmar de todo a República, antes, tendo conseguido levá-la por um bom caminho, a afastou dele, a violência e fogosidade de Alcibíades, impelindo-a outra vez à guerra, o que sucedeu desta forma : Os que principalmente se opunham a paz da Grécia eram Cleón e Brasidas, aquele porque na guerra no se mostrava tanto sua maldade e este porque nela resplendia mais sua virtude ; como que a um dava ocasião a grandes injustiças e a outro para gloriosos triunfos. Mas como ambos morreram na mesma batalha, que foi a de Amphípolis ( ocorreu no ano 422 a.C. ), encontrando Nícias aos espartanos desejosos muito de antemão da paz e aos atenienses com pouca confiança de tirar partido da guerra, e a um e outro fatigados e com disposição de depor com o maior gosto as armas, trabalhou para ver como conciliar amizade entre as cidades, e aliviar e dar repouso aos demais gregos dos males que sofria, fazendo daí em diante seguro e estável o saboroso nome de felicidade. Os anciãos, os ricos, as pessoas do campo, desde logo estavam com com disposições pacíficas ; enquanto aos demais falando com cada um em particular e procurando convencê-los, conseguiu também retraí-los à guerra : e quando assim foi executado, dando já esperanças aos espartanos, os excitou e moveu para que se apresentassem pedindo a paz. Creram nele, seja por sua conhecida probidade, seja porque aos cativos e rendidos de Pilos, cuidando e visitando-lhes com humanidade, lhes fez mais leve a desgraça. Havia já antes ajustado tréguas por um ano, durante as quais,reunindo-se uns com os outros, e gostando do sossego e descanso, e do trato com os estrangeiros e os próximos, lhes havia acendido um vivo desejo [ a coluna de fogo ] daquela vida isenta de inquietudes e de riscos ; assim, ouviam com gosto aos coros quando cantavam : ‘Fica, ó lança, qual despojo ( resto ) inútil, onde enredem as aranhas suas teias.’
Era-lhes também saboroso trazer à memória aquele gracioso dito de que aos que em paz dormem não os despertam as trombetas mas os galos. Abominando, pois, e maldizendo aos que supunham ser destino certo aquela guerra se prolongar por três vezes nove anos, trataram e conferenciaram entre si e fizeram a paz. Formou-se então geralmente a ideia de que aquela reconciliação era estável e todos tinham sempre a Nícias nos lábios, dizendo que era um homem amado dos deuses, a quem seu bom gênio havia concedido, por sua piedade, que do maior e mais apreciável bem entre todos tivesse tomado o nome ; porque, realmente, criam sua obra a paz, como de Péricles a guerra ; parecendo-lhes que este, por muitos pequenos motivos, tinha jogado os gregos em grandes calamidades e que aquele os fez esquecer as ofensas mútuas, voltando a ser amigos. Por tanto esta paz, até o dia de ho-je, se chama de Nícias.”

Já sabemos o final da história o partido da guerra eventualmente acaba vencendo, com o lado ruim de Alcibíades, e acontece a maior guerra que já houve entre gregos e gregos : atenienses contra sicilianos & espartanos. Nícias sempre foi contra a guerra mas os atenienses o elegem general dela : essa imagem igual aquela do sacrifício de Daksha que ao afastar Shiva, não convidá-lo, desfaz-se, deixa de existir. O capítulo XIII da ‘Vida de Nícias’ de Plutarco faz um inventário, relata uma lista, elenca uma série, de preságios da ruína da expedição, de acontecimentos contra sua continuação. Corresponde no Shiva Purana pg 395 o ‘estranhamento entre Daksha e Shiva’, com as maldições, não maldições, correspondentes.

Gilipo, o espartano que chega só em Siracusa em um pequeno barco e apenas com sua capa e báculo como sinal distintivo da dignidade de Esparta conquista a todos, equivale a Virabhadra, que destrói o sacrifício todo na briga dos deuses contra Shiva. A derrota em si, de Nícias acontece quando à noite fica muito escura e ninguém vendo nada, acabam se matando entre si. Um eclipse da lua também leva Nícias a introspectar-se em sacrifícios somados a uma doença que também o castiga leva tudo a acabar-se antes de começar. No capítulo XXIX de Plutarco fala-se dos versos de Eurípedes que por todos conhecidos eram por todos recitados a guisa de salvação na desgraça que se segue.



terça-feira, 5 de setembro de 2017

[ n. do tr. : Demétrio = Prthu ]



Demétrio = Prthu

Em 1943 Georges Dumézil lançou um pequeno grande livro em Paris, dedicado aos professores e estudantes presos então, chamado ‘Servius et la Fortune. Essai sur la fonction sociale de Louange et de Blâme et sur les éléments indo-européens du cens romain.’ Ele compara as histórias do rei Prthu da Índia e do rei Servius Tullius na Roma antiga e mostra a conexão, paralelo, contato, entre as duas. O Louvor e a Crítica estariam presentes nas duas fazendo o autor uma larga e preciosa análise etimológica das palavras relacionadas : censo em latim e sams- em sânscrito, em que aparecem as ideias de ordem, ordenação, apresentação de todos, feira livre ( sim feira livre que junta a todos os diferentes, cada um com sua mercadoria específica ), proclamação, louvor & crítica, ‘vox populi vox dei’, potlach ( a antiga forma econômico-política tratada por Levi-Strauss e Malinowski em que o rei apropria-se de tudo e depois distribui tudo por todos ), etc : este elogio edificante ( que desde o princípio pode ser também crítico ), qualificante, gera uma produção, distribuição das riquezas todas como diz o autor, realiza o personagem, o rei, fazendo-o crescer e apresentar-se, mostrar-se enquanto rei, igual a Indra estando escondido debaixo d’água, purgando os pecados, é encontrado por Agni, o fogo, que tem que se molhar e descer lá embaixo para, elogiando-o, relembrando seus nomes, o fazer crescer e se apresentar, mostrar ( pg 68) : esta apresentação está na imagem mesma da Roda da Fortuna, na Terra gerando e produzindo as riquezas todas : guardamos a imagem dela apenas como vertical mas é também claramente horizontal, com o conjunto de todas as ordens, classes, castas, mostrando-se com seus produtos específicos. Adiantando então o sentido vertical àproxima da Lua que de cheia fica vazia, nova, e depois volta a encher : assim Demétrio perde tudo várias vezes mas consegue voltar a brilhar : como Prthu não consegue realizar seu sacrifício, frustra-se, falha e depois chora arrependido diante de Vishnu : existe o sentido vertical da Roda da Fortuna de ter tudo e de não ter nada, estar no alto da roda e estar embaixo, desapegado das coisas todas.

Dumézil neste grande pequeno livro mostra que a origem etimológica do nome Fortuna é o nome Prthu que teria aspirado em Phrthu e daí Fortuna : a equação Demétrio = Prthu confirma esta etimologia e não há razão alguma para descartá-la, desprezá-la, posto que na ‘Vida de Demétrio’ de Plutarco o autor insiste em aproximar a imagem da Fortuna da imagem deste rei ( caps. I, XXXV, XLV, XLVIII) confirmando o sinônimo posto que Prthu gerou Prthivi, a Terra, igual a De-Meter, Demetrio. A Roda das Riquezas todas em Prthu é realizada ordenhando-se a Vaca da Abundância, ser mítico que nasceu do batimento do mar de leite : a espuma branca do mar batido imagem do comércio marítimo. Todos os alimentos, leites, são gerados de acordo com cada parte da Natureza : segue o texto de Bhagavat Purana IV, 18, 12s :

Aceitando a agradável e saudável palavras de conselho da deusa da terra, o rei fez Svayambhuva Manu como bezerro e ordenhou todas as ervas e plantas tais como cereais etc com sua própria mão.
Similarmente outros sábios também extraíram essência de tudo em toda a parte. Então outros quinze sábios tiraram seus objetos de desejos da vaca terra domesticada por Prthu.
Oh muito correto Vidura ! Então os sábios fizeram Brhaspati bezerro e retiraram da deusa terra leite na forma de sagrados Vedas, em seus próprios órgãos dos sentidos i.e. ouvidos, fala, mente.
Os deuses fizeram Indra de bezerro e extraíram em um vaso de ouro sumo de Soma e leite néctar doador de vigor mental, esplendor, energia e força física.
As tribos demônicas Daityas e Danavas fizeram Prahlada o maior detodos os Asuras como bezerro e ordenharam seu vinho e cocções licores fortes em um vaso de ferro.
Os artistas celestiais Gandharvas músicos celestes e Apsaras ninfas celestes fizeram Vishvavasu de bezerro e extraíram o leite em um copo de flor de lótus e tornou-se o mel Gandharva especial doador de beleza e doçura de voz.
Os manes veneráveis Pitrs, as deidades que presidem a cerimônia Sraddha realizada em memória às almas que partiram, fizeram Aryaman o chefe dos Pitrs como bezerro e reverentemente ordenharam leite em um vaso de barro não cozido e ele tornou-se Kavya alimento para os manes.
Os Siddhas seres semi divinos fizeram Kapila bezerro e extraíram novaso do céu os oito superpoderes humanos ( Siddhis ) exequíveis por mera vontade. Os Vidyadharas tribo de semideuses ordenharam o leite na forma da arte de mover-se pelos ares no mesmo vaso com Kapila bezerro.
Outros tais como os Kimpurusas, tribo semidivina conhecida por seu poder de conjurar truques ( máyacos ) fizeram Maya bezerra e tiraram dela poderes mágicos que possuem seres maravilhosos que podem se tornar invisíveis à vontade.
Os Yakshas e Rakshasas demônios, Bhutas e Pisacas, fantasmas e espíritos maus que alimentam-se de carne crua fizeram o senhor dos fantasmas Rudra bezerro e extraíram num crânio o vinho sangue.
Do mesmo jeito, répteis, escorpiões, serpentes fizeram Takshaka o chefe das Nagas bezerro e retiraram veneno como leite em suas bocas como vasos.
Bestas herbívoras fizeram o touro de Rudra, Nandi, bezerro e retiraram grama como leite no vaso na forma da floresta. As bestas carnívoras com seus grandes dentes e alimentando-se de carne crua com o leão de bezerro o rei das bestas retiraram no vaso na forma de seus corpos seus leites. Os pássaros que usaram Garuda o chefe dos pássaros como bezerro, tiveram móveis como vermes e insectos e imóveis como frutos por leite.
Com árvore Banian de bezerro, as árvores extraíram seus próprios respectivos sucos como leite. Montanhas tiveram a mais alta delas Himalaia por bezerro e ordenharam vários minerais como leite nos vasos na forma de seus cumes.
Todas as espécies de seres usaram seus próprios chefes como bezerro e extraíram largamente em seus próprios vasos o leite especificamente útil como alimento para suas próprias espécies, da terra que produz todos os objetos desejados quando ela foi domesticada por Prthu.
Oh Vidura filho da família Kuru ! Deste jeito Prthu e outros existiram de alimento obtido da terra diferentes tipos de leite na forma de seu alimento específico, usando diferentes tipos de bezerro e de vasos de leite.
Com isto Prthu, o senhor da terra ficou altamente agraciado com a deusa terra que produziu todos os objetos de desejo e afeito como era por filhas, ele a viu como sua filha, com afeição paternal.

Há algo semelhante na ‘Vida de Demétrio’ de Plutarco ? Há.
No cap I fala-se da musicista Ismenias de Tebas que pedia que tocassem bem de um lado e mal de outro para se conhecer os dois lados do som exemplo que Plutarco usa para todas as artes e para a vida mesma que for dada a extremos.

No IX do encontro com Estilpon, mestre de Zenon e discípulo de Diógenes, que questionado sob se perdera algo diz que não há como se perder a ciência que sendo algo interior é portanto inalienável. A questão da autarkeia, bastar-se a si próprio, ser autossuficiente.

No III, IV, XIX, XXVIII, XXIX, XL, fala da relação pai e filho, excepcional no caso posto que amava seu pai e vice versa sendo o normal a briga, disputa : no último capítulo indaga-se : ‘Darás seu pagamento aos mortos ?’ indicando que em Plutarco podemos ver um sraddha, a oferta dos Pitrs, pais, antepassados que trata justamente disso da oferta aos mortos, os antepassados conforme vimos no Purana acima.

No XX das máquinas e naves construídas por Demétrio e da sua excelência na mecânica ciência que buscava fazer coisas grandiosas, dignas de rei, como sua ‘helepolis’ a torre desmontável de ataque a fortalezas. Nomeia os reis e suas atividades : Eropo de Macedonia se entretinha quando fazia mesas e lamparinas ; Atalo chamado Filometor cultivava ervas venenosas não só o beleño e o eléboro mas também a cicuta, o acônito e o doriemo semeando-os e plantando-os em jardins reais e tendo cuidado de conhecer seus sucos e frutos e colhê-los no tempo. Com o suco do último da lista muito venenoso impregnava-se as pontas das flechas ( não lembra o leite das cobras, serpentes, do Purana acima ? ) ; os reis dos partos eram vaidosos da sua destreza em afiar a ponta dos dardos, flechas, lanças.

No XXII da pintura de Protógenes de Caunio em Rodes, pintura dos filhos do Sol, sobre a qual depois Plínio dissertará, famosa que foi. Substitui o pelo, retrato, rasgado na acrópole pela borrasca, substitui enquanto símbolo na história toda deste rei.

No XXV recenseia-se o império : Demétrio rei, Seleuco chefe dos elefantes, Ptolomeu general da armada, Lisímaco tesoureiro, o siciliano Agatocles governador das ilhas.

No XXVII de Lamia, a velha, anciã, que encantou Demétrio e se tornou sua principal amante : dita a Ogra enquanto Demétrio seria o conto, a história : a referência aos Jatakas de Esopo Buddhista aqui é clara : vemos em várias histórias a Ogra justamente como Lamia seduzindo o rei : o leite da história.

No XXXIII e XXXIV libertando e trazendo comida para Atenas que passava fome na época de Epicuro e Crates. Entregando comida com as próprias mãos para Epicuro seria a imagem.

No XXXVIII fala do grande médico-filósofo Erasístrato, natural de Queos, e de Seleuco médico curando seu filho : este estava apaixonado por uma das esposas do pai paixão fulminante que matava o jovem e Seleuco soube curar o filho.

No XLIII fala-se novamente da excelência da armada, das naves, de Demétrio,
exemplo artístico no tempo que Euclides vivia e ensinava e Arquimedes era criança. Se pensarmos que a descoberta do peso específico dos metais é a origem da tabela periódica temos aqui toda a química. Arquimedes correndo nu no meio da rua dizendo ‘eureka’ lembra o desapego de Diógenes, o grande cão largado no meio da rua e a todos indagando como Sócrates o primeiro da grande escola que é a Philosophia e desde já a doutrina mesma do cinismo de desapego do mundo e das coisas materiais conforme veremos mais a frente com Crates.

No XL – XLIV fala de Pirro e do caráter teatral de Demétrio : a cena em Plutarco é hilária : os soldados simplesmente passam do lado do segundo para o lado do verdadeiro rei o primeiro : define-se o caráter do rei por elogio & crítica, teatral mesmo, de Demétrio, que veremos a frente

No XLVI do encontro com Crates o filósofo, o quarto na linha de sucessão da Philosophia : Sócrates, Antístenes, Diógenes, Crates, Zenon.

Cada um destes grandes personagens que aparecem na ‘Vida de Demétrio’ é um dos bezerros atado à vaca das riquezas produzindo o leite de cada espécie, de cada arte, de cada parte da sociedade, cidade, leite bebido em diferentes copos, taças, vasos, como são diferentes as artes e ciências : e Plutarco fala das diferentes artes e ciências no cap. I ! , sobre o meio termo em cada uma delas entre o excesso e a falta, paralelo na ética eudemiana as potências d’alma.

Quem fala de Crates, o médico das almas, é Padre André Festugière, este grande historiador, tradutor, do séc. XX, cf. bibliografia pg 141 : “Chamavam-no pois em todas as casas e ele entrava em todo lado como se fosse sua casa : “Crates o philósopho que entrava em todas as casas e que era recebido honrada e amigavelmente, era chamado ‘o que abre as portas’.” ( Plut., qu. Conv., II, 1, 6, o mesmo termo também em Diog. Laer., VI, 86 ). E Apuleio é mais explícito em um capítulo de suas ‘Floridas’ ( XXII ) que é inteiramente dedicado a Crates : “O célebre Crates, discípulo de Diógenes, foi honrado como um tipo de gênio doméstico ( ut lar familiaris ) pelos Atenienses de seu tempo. Jamais alguma porta lhe estava fechada ; nenhum pai de família tinha assunto tão secreto, tão íntimo, que a intervenção de Crates nele parecesse intempestiva ; em todos os processos, todas as disputas entre próximos, ele fazia o ofício de mediador e de árbitro “( tr. Vallette ). O método de Crates parecia ser de se mostrar sempre feliz, alegre : “Ainda que apenas possuísse seu saco ( alforje ) e seu manto curto, Crates, como em uma festa, passava seu tempo a se divertir e a rir.” Vemos se mostrar aqui um personagem bem mais simpático que o cínico que se debate sem cessar contra as pessoas ; é o cínico que ao contrário tem piedade delas e se coloca a seu socorro, delas, pessoas, como o fez Hércules. A comparação é clássica, a encontramos na passagem citada acima das ‘Floridas’: “É que o quê Hércules outrora, no dizer dos poetas, foi para os monstros malignos, humanos ou bestas, que ele domou pela força e dos quais purgou a superfície da terra, Crates o foi para a cólera, a inveja, a avareza, o deboche ; contra todos os monstros e todas as doenças da alma humana, este philósopho foi o Hércules ; ele caçava dos corações as pestes, purgava as famílias, domava os maus instintos. Semi nu ele também e reconhecido por seu porrete pesado, ele era de Thebas, como Hércules.” ( tr. Vallette, salvo ligeiras variantes ).
Talvez este cuidado de Crates pelos seres humanos venha de que ele mesmo tenha sofrido muito. Nascido em 365 ele viu em 334, na idade de 31 anos sua cidade ser completamente destruída por Alexandre. Quando algumas décadas mais tarde, Cassandro, restaurando Thebas lhe propôs de viver lá de novo, ele recusou : “Para que ? Um outro Alexandre a destruirá de novo.” E ele não tinha mais pátria de verdade e podia dizer ( Trag. Gr. Fr., Crates, 1 ) : “Não possuo que uma só fortaleza como pátria, não tenho que um só teto : é em todo lugar da terra
cidade e casa que me são preparadas para que eu viva.” Não é o cosmopolitismo moderno para quem todas as partes do mundo formam uma unidade. É antes o sentimento que o verdadeiro sábio, na medida que é autarkès, onde é autossuficiente, pode viver em todo lugar. Ele leva para todo lado suas misérias : não importa qual polis todas tem para ele o mesmo valor : “há apenas uma só fortaleza ( purgos )”, ou antes sua verdadeira fortaleza é ele mesmo, as outras não são que muros que a Fortuna pode fazer desmoronar. (…) O poema de Crates mais célebre foi aquele do Saco / Alforje ( Pèra ). Ele é citado por Diógenes Laércio, Démétrius de elocutione, Clemente de Alexandria Paidagogos, Apuleio de magia. Aqui a tradução a partir do livro citado acima de H. Diels, Poetarum philosophicorum fragmenta ( 1901 ) ( fr. 4-5 ) : “Há uma cidade, o Saco ( Pèra ), no centro da vã glória ( typhô ) cor de vinho ; ela é bela e fecunda e não possui nada do que escorre a seu redor. Nela não entra nada de parasita doido nem de debochado que faz de nádegas prostituídas sua delícia mas ela carrega tomilho, alho, figos e pães. De onde resulta que nela não se briga por estas coisas pobres, os homens não tomam armas por uma pequena moeda nem pela glória … Seus habitantes são livres da escravidão do prazer e sem dobrar o pescoço eles buscam a realeza imortal e a liberdade ( Athanaton basileian. A realeza é aquela do homem que possui autossuficiência, autarkeia, ele é por todo lado rei, como o sábio dos estóicos e livre posto que não tem necessidade de nada ).”
Assim o ser humano é de agora em diante livre, e de agora em diante seu rei, se se contenta com seu saco e seus alimentos que ele contêm, que em verdade são suficientes para alimentar um ser humano : tomilho, alho, figos e pães, este era durante muito tempo a ração daquele que partia em campanha. Por exemplo, Lamachos que reclama “do sal misturado com tomilho e cebolas” ( Aristoph., Ach., 1099 ). Somos sempre reconduzidos a mesma conclusão : Crates ‘humanizou’ o caminho de vida instituído pelo Kuôn [ Cão, Diógenes ], ele a tornou possível e por isto mesmo a tornou eficaz. Um outro [ IHS XTO ] dirá mais tarde : “Não leveis nem ouro nem prata nem guardeis moedas nos cintos, nem saco para a estrada, nem duas túnicas, nem sapatos, nem cajado : pois o operário merece seu alimento.” A expressão mudou um pouco porque a ideia não é mais complemente a mesma. O predicador do Evangelho está em princípio certo de conseguir seu alimento em qualquer casa onde ele passe. O mendicante cínico não está certo de todo de ser satisfeito, atendido, daí que carregue consigo o pouco que lhe é necessário. Mas com a reserva desta ligeira diferença, o princípio de vida é o mesmo : tornei-vos livres. Livres, nos Apóstolos, de pregar o Evangelho sem misturar nenhuma outra preocupação. Livres, entre o Cínico, de passar sem se preocupar de uma parada a outra, indiferente aos golpes da Fortuna.” É justamente esta a lição da ‘Vida de Demétrio’ de Plutarco.

Passemos para a parte relativa a Louvor & Crítica que caracteriza o personagem. Cap. X – XIII e XXIII – XXVI expõe a oposição Estratocles orador demagogo e Filípedes comediógrafo do palco, inimigos que eram, em dois momentos diferentes da ‘Vida de Demétrio’ : são estes dois lados de louvor & crítica, leite com seus respectivos bezerros em vasos, potes, diferentes. “E tendo sido Demétrio um benfeitor grande & magnífico o fizeram molesto & odioso com as desmedidas honras que lhe decretaram. … Estratocles o que mais inventou estas coisas a ele atribui-se tão excessivos e singulares modos de adular. Era todo insolente este Estratocles tendo vida dissipada e imitando em despudor e imprudência a falta de respeito pelo Povo do antigo Cléon.” Em dois momentos a adulação insana, louca mesmo, é confrontada em versos pela comédia. Num primeiro momento o peplo, retrato dos deuses foram pintados com o rosto de Demétrio e Antígono mas uma tempestade rasgou o retrato em plena exposição daí o verso de Filípides sobre Estratocles ‘por quem as vinhas foram abrasadas pela borrasca, e por cuja impiedade se rasgou o peplo, dados a homens os divinos cultos : isto, não a comédia, arruína o Povo.’ Sábias palavras que mostra a comédia do lado da crítica.
No segundo momento os versos de Filípides sobre Estratocles são dois também, falando de dois acontecimentos diferentes. O primeiro : ‘O que a um mês só, há reduzido um ano’ : Demétrio quer se iniciar nos mistérios maiores e menores em Atenas mas o intervalo entre eles é de um ano : precisando da força do elogio / louvor o ano é reduzido a um mês e Demétrio recebe o grau de inspeção dos maiores tendo iniciado-se apenas um mês antes nos menores. O segundo : ‘O que por albergue teve a fortaleza, e da virgem o sagrado templo, introduziu as torpes cortesãs.’ : tendo Demétrio libertado novamente a cidade deixaram ele residir num prédio às costas do Partenon de Atena para honrar-lhe e obsequiar-lhe e o ato mostrou-se loucura insana posto que introduziu Lamia e suas amigas no templo da virgem. Há a morte de Damocles que não quer se entregar, quer ser virgem e há o exílio de Damocares que ao escutar que Estratocles devia estar louco diz : ‘estaria se não o estivesse’ “porque realmente Estratocles serviu muito a cidade com estas adulações”.

No ano 301 a.C. Antígono e Demétrio perdem a batalha de Ipsos, Frígia na planície da atual Eskikara-Hisar e começa o rei a se tornar uma pessoa comum, humilde, sem posses, “dando nisto o mais relevante testemunho da sentença de Platão que exorta ao que quer ser verdadeiramente rico a que em lugar de aumentar a riqueza diminua o desejo insaciável de ter, possuir, pois o que não sabe aplacar a avareza jamais se verá livre da pobreza e da miséria.” Neste momento que liberta Atenas da tirania e alimenta Epicuro, o grande philósopho : “o Povo com a alegria prorrompia em diferentes aclamações tratando de sobrepujar os elogios que os demagogos pronunciavam desde a tribuna ...”. Reuniu um resto de forças e foi tomar Esparta : “Quase nada faltava para fazer-se dono dela, não tendo nunca sido tomada até então ; porém a Fortuna parece que não usou jamais com rei nenhum de tão grandes e súbitas mudanças, nem com ninguém foi tantas vezes pequena e grande, humilde de exaltada, e poderosa outra vez de pobre e abatida ; assim se diz que o mesmo Demétrio em uma das mais notáveis destas vicissitudes, empregou, exclamando contra a Fortuna, este verso de Ésquilo : ‘tu me alentaste e tu queres perder-me’. Porque então indo prosperamente seus negócios [ conseguiu se restabelecer da derrota ] em relação ao império e ao poder, o avisaram primeiro que Lisímaco tomara as cidades d’Ásia ; e em seguida que Ptolomeu apoderara-se de toda Chipre, exceção da cidade de Salamina e esta estava sitiada estando dentro seus filhos e sua mãe. Mas ao mesmo tempo a Fortuna que como aquela mulher dos versos de Arquíloco, ‘Enganosa e falaz em uma mão, levava água e na outra fogo’, tendo-se apartado da Lacedemônia com tão desagradáveis e terríveis novidades se apresentou outras esperanças de novos e grandes sucessos com a ocasião seguinte.” Segue o relato, cap. XXXVI, da morte de Casandro e depois de seu filho Alexandro, relato estranho de uma morte na porta, Demétrio passa por uma porta e diz quando passa que matem o que lhe está seguindo ‘acabem com o que me segue’.

O relato de Prthu no Purana, Bhagavat Purana, talvez explique a cena do filme que é Plutarco : sim Plutarco em todas suas ‘vidas’ de grandes personagens vê uma imagem, transmite uma cena : ponto. Dois pontos : há uma tradição de imagem. Voltando ao relato, Prthu não consegue realizar seu sacrifício, perde, frustra-se, chora. Igual Demétrio. Levanta-se realiza a iniciação com Vishnu e aprende de Sanatkumara :
Quando seu apego e prazer em Brahman torna-se firmemente estabelecido, uma pessoa procura um preceptor espiritual. Justo como fogo ligado em arani um pedaço de madeira de árvore Sami usada para acender fogo por fricção consume sua própria fonte o pedaço de madeira do qual surge, o ser humano, por força de seu conhecimento e desapego queima seu corpo sutil que consiste de cinco elementos sutis [ Pañcatmakam : (i) Consiste dos cinco kilesas i.e. avidya ( ignorância ), ahamkara ( ego ), raga ( apego ), dvesa ( aversão ) e abhinivesa ( apego instintivo à vida mundana e gozo corporal e o medo de ser privado disto – ASD. 39) ; ( ii ) Consistindo dos cinco Kosas ( envelopes ) que descansando um dentro de outro faz do corpo relicário da Alma. Eles são : (1) annamaya,(2) manomaya, (3) Pranamaya, (4) Vijñanamaya e (5) anandamaya. ] que envolve sua Alma, de tal modo a torná-lo não vivo.
Quando a tela ou envólucro do corpo sutil que envolve Alma, até então intervindo entre Alma superior ( Paramatman ) e a Alma, é destruído, a pessoa torna-se livre de todos os atributos ( como amor aversão que merecem ser entornados, expulsados ( heya-gunah ) pertencendo ao corpo sutil que foi queimado. Daí em diante ele não percebe seus estados subjetivos de prazer, dor, etc. Que estão dentro dele ( culpas internas ), nem objetos ( p. ex. Um pote, um pedaço de roupa ) que são externos a ele, justo como uma pessoa acordada de um sonho não vê os objetos percebidos no sonho. É neste estado de vigília e sonho enquanto este upadhi ( condição ) da mente continua, que o ser humano pode perceber a si mesmo o vidente, objetos dos sentidos e o que está além deles – o que vê e o visto e não de outro modo quando dormindo.”

Uma vez que Demétrio acabara de ser iniciado em Atenas, a morte de Alexandro na porta ( ‘acabem com o que me segue’ ) parece ser a morte, queima, deste corpo sutil de que fala Sanatkumara no Purana. Ele está diminuindo e tornando-se si-mesmo. Em 287 a.C. quando os soldados passam para o lado de Pirro e Demétrio reduz-se ainda mais diz Plutarco : “Demétrio com o desígnio de recolher os restos daquele naufrágio navegou para a Grécia e reuniu os generais e amigos que ali tinha. A comparação que Menelao de Sófocles faz com sua fortuna quando diz :
O fado meu na inconstante roda, da Fortuna volta continuamente, trocando sempre seu presente estado ; com seu aspecto de lua vária, que duas noites não fica igual, mas ho-je de escura nova sai, embelecendo e redondando o rosto, e quando maior brilho e luz ostenta, outra vez cai e toda desaparece.’
parece que enquadraria melhor com as coisas de Demétrio com seus crescentes e seus minguantes, seus brilhantismos e suas obscuridades ; pois parecendo que então desfalecia e se apagava de todo, voltou outra vez a resplandecer seu poder e juntou ainda alguma forças com as quais recobrou algum tanto de esperança. Foi então que pela primeira vez andou recorrendo as cidades como simples particular, despojado das insígnias reais ; e vendo-o um dos de Thebas nesta situação lhe aplicou não sem graça estes versos de Eurípedes :
de Deus mudada a esplendente forma, na de homem mortal a nossa vista, junto ao cristal de Dirce se apresenta, e do Ismeno na aprazível margem.’”
O capítulo LII da Vida de Demétrio de Plutarco sobre o sossegar da alma do personagem ao fim da vida, parece confirmar a hipótese, confirmar seu sucesso na busca do viver livremente.

Bhagavat Purana III, 22, 52 também confirma a tese com relação a Prthu : “Justo como o Sol permanece intocável e imaculado pelos objetos em que brilha, o rei, apesar de levar vida de dono de casa e dotado com majestade imperial e esplendor, permanece livre do egoísmo ( ahamkara ) e daí desapegado dos objetos dos sentidos.”

Georges Dumézil em 1956 lançou pela Latomus de Bruxelas o livro ‘Déesses latines et mythes védiques’ em que um capítulo fala de Fortuna Primigênita e outro de Lua Mater. No primeiro discute-se o fato de Fortuna ser mãe e filha de Dius-pater como Atena é filha de Ju-piter e o salva qual mãe na luta contra os gigantes, os titãs, etc. A mesma coisa acontece na história de Demétrio em que sua filha Estratônica casando com o filho de Seleuco acaba por salvá-lo.

Bibliografia :

Plutarco, Vida de Demetrio ( tr. de Antonio Ranz Romanillos ), Aguillar, Madrid, 1973.
A.-J. Festugière, La vie spirituelle em Grèce à l’époque hellénistique, Picard, Paris, 1977.
Georges Dumézil, Servius et la Fortune, Gallimard, Paris, 1943.
The Bhagavat Purana ( tr. G.V. Tagare ), Motilal Barnasidass, Delhi, India, 2002.




sexta-feira, 11 de agosto de 2017

[ n. do tr. : Pirro = Varuna ]


Pirro = Varuna

Esta equação resolve os vários problemas da expressão simbólica na ‘Vida de Pirro’ de Plutarco : Pirro = Varuna : temos o ‘rajanya’ de Pirro mesmo, sua aspersão a rei dos macedônios, com a conseguinte perda de toda a energia em sua expedição a Itália que Plutarco ressalta por várias vezes ; o irmão, parente próximo, Neoptólemo que quase fica com o título ; o ‘sautramani’, sacrifício dos três bichos quando da aspersão que refere-se a purificação e ao restabelecimento da energia, força perdida; os laços que tenta impor a Fabrício romano, a riqueza, o elefante e o médico por fim, mas que são desfeitos ; a fala, a palavra enquanto aço afiado, a lei mesma do Eácida filho de Zeus irmão de Minos o legislador por excelência ; a relação pai-filho no princípio e fim na travessia do rio e na morte pela telha ; a questão do dedão do pé que curava as pessoas doentes do baço e que teria, ele o dedão, sobrevivido incólume nas cinzas do corpo incinerado do herói – é o próprio Pequeno Polegar ; enfim comecemos pelos textos sobre Varuna que temos :
Satapatha Brahmana V, 4, 3, 1-2 : “1. Norte do ahavaniya ele coloca cem ou mais de cem, vacas daquele parente dele. A razão porque faz isto é esta : 2. Quando Varuna foi consagrado ( rei ), sua energia, seu vigor, saiu dele. Provavelmente a essência ( seiva da vida ) das águas coletada com as quais o aspergiram, tirou fora sua energia, seu vigor. Ele o encontra no gado e porque o encontra nele, o gado torna-se objeto de respeito. E tendo-o encontrado no gado, novamente toma para si mesmo sua energia, seu vigor. E de modo semelhante este um – esta energia não saiu dele mas faz isto pensando, ‘Este Rajasûya é a consagração de Varuna e Varuna fez isto’.
V, 4, 3, 11 : “Agora por quê para no meio das vacas do seu parente, - o quê quer que seja retirado do homem, seja fama, ou qualquer coisa, isto passa para seu parente mais importante ; - esta energia, ou vigor, ele agora toma de volta do seu parente para si mesmo : isto é porque ele para no meio das vacas do seu parente.
V, 4, 5, 1 : “Bem, quando Varuna foi consagrado, seu brilho saiu dele – brilho significado vigor : este Vishnu, o Sacrifício, foi ele que saiu dele, - provavelmente aquela essência das águas coletada com as quais ele foi ungido naquela ocasião, retirou seu brilho.”
V, 5, 4, 1 : o Sautramani os três animais sacrificados um cabrito marrom para os Asvins pois os Asvins são marrons. Uma ovelha com tetas pendentes para Sarasvati e um touro toma-se para Indra Sutraman ( bom protetor)( segue a história do filho de Tvasthtri, Vishvarupa ( Todas- formas ), cujas três cabeças Indra cortou pois não gostava delas, e que como com Varuna resultou que perdesse sua energia,vigor, sendo então curado pelos Asvins, como já relato, antes, daí o sacrifício Sautramani e no texto seguinte se repete com Vritra).
V, 5, 5 1. Ele prepara um bolo em doze potes para Indra e Vishnu. Bem por quê esta oferta. Antigamente tudo aqui estava dentro de Vritra, para entender, o Rig, o Yagus e o Sâman. Indra desejava jogar o raio nele. 2. ele disse para Vishnu, ‘Jogarei o raio em Vritra e fiques do meu lado !’ -”Assim seja!’ disse Vishnu, ‘Permanecerei do teu lado : jogue-o !’ Indra mirou o raio nele. Vritra ficou com medo do raio levantado. 3. Ele disse, ‘Há aqui uma fonte de força : darei-a a ti ; mas não me bata !’ e deu a ele as fórmulas Yagus. Ele Indra mirou-o uma segunda vez. 4. Ele disse, ‘Há aqui uma fonte de força : darei-a a ti mas não me bata !’ e deu a ele os Rig-versos. Ele o mirou uma terceira vez. 5. ‘Há aqui uma fonte de força : darei-a a ti mas não me bata !’ e deu-lhe os hinos Sâman. Por isto espalham o sacrifício do mesmo jeito ainda ho-je com estes três Vedas, primeiro com as fórmulas Yagus depois com os Rig-versos e então com os hinos Sâman ; pois assim ele Vritra deu-os a ele. 6. E aquilo que foi o assento de Vritra, seu retiro, que ele esmigalha, pegando-o e despedaçando-o [ paralelo em III, 2, 1, 25-28 Yagña ( o sacrifício ) desejava Vâk ( a fala ) pensando, ‘Possa casar com ela !’ Ele uniu-se a ela. 26. Indra então pensou consigo mesmo, ‘Certamente um grande monstro brotará desta união de Yagña e Vâk : devo me cuidar senão podem me vencer’. Indra ele mesmo tornou-se um embrião e entrou dentro daquela união. 27. Bem quando ele nasceu após o tempo de um ano, pensou consigo mesmo, ‘Verdadeiramente tem grande vigor este útero em que estivesse contido : devo me cuidar que nenhum grande monstro nasça dele depois de mim e me vença. !’ 28. Tendo-o pegado e apertado forte, ele o despedaçou e colocou na cabeça do Yagña ( sacrifício ); - pois o antílope preto é o sacrifício : a pele preta do cervo é o mesmo que o sacrifício e o chifre preto do cervo é o mesmo que aquele útero. E porque foi apertando-o todo e pressionando que Indra despedaçou o útero por isto o chifre é amarrado apertado na extremidade da roupa; e como Indra tornou-se um embrião, broto daquela união assim é ele o sacrificante, após se tornar um embrião nascido daquela união de pele e chifre.’ ] : aquilo tornou-se esta oferta. E porque a ciência dos Vedas que descansava naquele retiro era, por assim dizer, tripla ( tridhatu ), por isto esta é chamada Traidhatavi.

Plutarco, Vida de Pirro, VII segue a descrição da souvetaurilia, sautraman, “Não deixou de voltar com Lisímaco mas sim fizeram as pazes e se reuniram para, sobre as entranhas das vítimas, confirmar os tratados com juramento. Trouxera-se um cabrito, um touro e um carneiro e como este morreu por si mesmo a todos causou riso o que sucedeu ; porém o agoureiro Teodoro proibiu a Pirro que jurasse, dizendo que aquele prodígio anunciava a morte de um dos três reis; assim Pirro se afastou da paz por esta causa. … agregava-se a natural enfermidade dos poderosos, que é a ambição desmedida pela qual veio a ser entre eles a vizinhança receosa e desconfiada …”.
No capítulo VIII fala-se de como era tido por ser o melhor capitão por sua perícia na tática e na habilidade assim como na estratégia e enquanto outros reis imitavam Alexandre na púrpura, nas guardas, no torcer o pescoço e no falar alto, ele, Pirro, o representava nas armas e no esforço seguindo então a descrição de Pirro bondoso permitindo as injúrias e críticas a si mesmo, próximas, antes de longe, em lugares distantes.
No IX fala-se de seus casamentos e no X o comparam a uma águia que é a metáfora do exército mesmo, como ele mesmo diz - “Por vocês – lhes disse – sou águia ; como não serei elevado no alto, como com asas, por vossas armas ?”.
No XI é eleito rei dos macedônios após o reconhecerem com o casco-égide ( de aegis (gr.) cabra) de Apolo, Athena : “Tumultuou-se a maior parte do exército e faziam diligência para ver Pirro. Justamente quando quando isto sucedeu tinha tirado o casco, capacete ; porém percebendo o quê acontecia o pôs e foi conhecido pelo penacho que sobressaía e a cimeira que eram uns chifres de bode com o que houve macedônios que correram até ele pedindo a contrassenha e alguns se coroaram com ramas de carvalho porque assim tinham sido visto coroados os que se achavam com Pirro.”
No XII a perda deste mesmo reino e do XIII – XXI a grande expedição à Itália em que sucessivamente vemos a perda do vigor, energia, sendo repetida por Plutarco seja em XV na travessia do mar ou na guerra mesma :
XV “Começou pois por enviar em auxílio aos tarentinos a Cíneas que levou consigo três mil soldados; depois, trazidos de Tarento muitos transportes para cavalos, naves armadas e toda espécie de barco, embarcou vinte elefantes, três mil cavalos, vinte mil infantes, dois mil arqueiros e quinhentos com fundas, fundeiros. Quando tudo estava pronto se fez vela e estando já no meio da mar Jônio foi arrebatada violentamente a esquadra por um vento norte que se levantou e o que era dele mesmo pode, não sem dificuldade e trabalho, ser levado para a margem e chegado a terra pela indústria e cuidado dos pilotos e marinheiros ; porém a esquadra se dispersou e se separou. Umas naves desviadas da Itália correram pelos mares Líbico e Siciliano e a outras que não puderam dobrar o promontório Yapígio as surpreendeu a noite e jogando-as a maré para praias desconhecidas e inacessíveis, se destruíram todas com exceção da do rei. Esta apesar de apenas batida no costado pelas ondas pode suster-se e resistir por seu porte e firmeza aos embates do mar; mas quando começou a soprar e rodeá-la o vento de terra, dano-lhe pela proa, correu grande risco de abrir-se e despedaçar-se. Assim, o mais terrível dos males que se tinha presente era entregar-se de novo a um mar irritado e a um vento que variava e contudo, levantando âncoras Pirro se lançou mar adentro sendo grande o trabalho e o empenho de seus amigos e guardas em estar a seu lado. Mas a noite e as ondas, com forte bramido e violento torvelinho atrapalhava que se socorressem ; de maneira que com dificuldade no dia seguinte, aplacado já o vento pode saltar em terra, alquebrado e sem poder se valer de seu corpo ; porém contrastando pela energia e força de sua alma com tamanho contratempo. Então os mesapios ( Lecce atual ) em cuja terra aportou se apressaram com a maior boa vontade a dar-lhe os auxílios que podiam, procurando recolher as poucas naves que e haviam salvado, nas quais estavam apenas uns poucos homens dos de à cavalo, menos de dois mil de infantaria e dois elefantes.”
XVI perde seu cavalo ;
XVII empresta seu manto e suas armas para um chamado Megacles e que acaba vencido ; mas Pirro aparece com rosto descoberto e continua a luta em que perde seus principais homens ( em 281 a.C. ) : “Eram estes que perdeu nesta guerra os mais avantajados entre seus amigos e caudilhos e quem Pirro mais confiava e considerava.” Vemos claramente o sentido da expressão vitória de Pirro pois venceu os romanos mas perdeu sua força principal.
XXI antes de começar a guerra, Pirro consulta a sacerdotisa de Delphos que diz que ele pode vencer os romanos. Mas ao final Pirro fala : “Se vencemos os romanos numa só batalha, contudo perecemos sem recursos.” E com isto retira-se da Itália.
A parte do parente, irmão, vemos no capítulo V quando da morte de Neoptólemo o tirano seu homônimo que querendo matar a Pirro e pegar seu título acaba morto, tudo acontecendo dentro de casa, no Epiro. Pirro = Neoptólemo o filho de Aquiles, neto de Eáco, filho de Zeus. O filho de Aquiles vinga o pai e mata Páris com o arco de Héracles guardado por Filoctetes em Lesbos, história contada na tragédia homônima de Sófocles e que segundo Vernant e Vidal-Naquet ( cf bibliografia ) é um relato das iniciaçõe efébicas ou crípticas, por iniciar o jovem cidadão na fase adulta da vida : Pirro / Neoptólemo teria inventado a pírrica quando na noite em que saíram, os gregos, do cavalo e mataram os troianos em suas casas : a referência é Eurípedes, Andrômaca, 1135; Luciano, De saltatione, 9; Ateneu, XV, 630. “Uma dupla denominação é uma lembrança de provações de adolescente, onde o iniciado recebe um novo apelido, nome, como símbolo da ruptura com a infância e de acesso a uma vida superior. Valores análogos se ligam ao nome que tomam os religiosos pronunciando seus votos.” ( Marie Delcourt, pg 34 cf. bibliografia ). Segue a mesma autora : “No sexto Pean de Píndaro, que data provavelmente de 490, Apolo decide recusar uma velhice feliz ao homem que matou o velho Príamo refugiado no altar de fogo. E como Neoptólemo se desentende com os serviçais do templo em relação a partilha das vítimas, o deus o mata – entendemos que o faz ou deixa fazer – em seu santuário, Delphos, próximo do largo umbigo da Terra. … O carrasco se chama Machaireus e seu pai Daitas : Porta machado filho de Festim. Todos os dois aparecem na literatura satírica e anticlerical que ralha com os Délficos ávidos de banquetes … deve-se somar que a delphique makaira, o machado ritual, era um símbolo da rapacidade clerical e mesmo da avareza em geral … enfim, não é curioso encontrar a lenda de um Pirros morto por um Machaireus quando um conselho pitagórico recomenda ‘mè tò pỹr tè makaira mokleuein’, não atiçar o fogo com um machado, espada ; símbolo sexual. Estrabão e Pausânias dizem que Pirro foi saquear Delphus daí a morte. Píndaro silencia sobre isto.” ( pgs 37-40 ).

O túmulo de Neoptólemo / Pirro em Delphos é descrito por Pausânias em seu ‘Guia da Grécia’ ( cf. bibliografia ) que conta esta história toda e faz referência a um ditado sobre sua morte : “o quê uma pessoa faz volta para ela”. A pedra que Rhéa deu a Cronos para engolir substituindo Zeus bebê está próxima daí falar-se de umbigo do mundo, o ômphalus de Delphos, onde Apolo sentado pronunciava seus oráculos imagem que vai se tornar sinônimo de palavra oracular em grego ‘omphé’, verbo que tem este sentido, definição. O ômphalus é uma pedra-túmulo : abaixo dele estaria enterrada a serpente Python morta por Apollo, ela todo ano recebe óleo em festividades que rememoram o acontecido e constitui a liturgia da iniciação dos adolescentes ( meninos e meninas ) da Amphictionia grega ( da união dos povos gregos que derrotou Tróia povos cujos nomes estavam escritos em coluna no templo mesmo de Delphos ). O ritual chama Stepterion e é descrito por Plutarco em De musica, XIV, p. 1136; Quest. Grec. XII; Def. Orac., XV; por Estrabão, VIII, p.422; e Elien,Hist. Var.., III, 1 : “Uma cabana de madeira é levantada lá no pátio, de nove em nove anos, não é apenas um buraco como uma toca de serpente mas é a imitação da morada de um tirano ou rei e o ataque é feito em silêncio sobre ela durante o quê é chamado Doloneia ... Com tochas acesas acompanham um garoto cujos pais ainda vivem e quando já colocaram fogo na cabana e virado a mesa, eles fogem sem olhar para trás pelas portas do santuário. Finalmente as vagâncias e a servidão do garoto e as purificações que acontecem em Tempé faz-se suspeitar que houve uma grande poluição e algum ato ousado. Eles vão até Tempé entregando-se a purificações e voltam a Delphos pela rota Pythias, coroados de louros sagrados. Seu ‘architheore’, provavelmente o ‘amphithales’ da primeira noite, leva um ramo de oliveira. Os antigos interpretavam o Stepterion como uma comemoração do combate de Apollo contra Python, cuja morte o deus expiou se exilando e servindo Admeto durante um ano.” Ou seja Apollo desce do céu para expiar, purificar, seus pecados ao matar a serpente e a mesma expiação, purificação repete-se ritual e liturgicamente. Este exílio iniciático é um noviciado com provas que são o exílio ( phygé ), corridas vagabundas ( plánai ), a servidão ( latréia ), escondimentos ( krýpseis ). Tanto Henri Jeanmaire ( p. 394 ) quanto Marie Delcourt ( p. 109 ) ( cf. bibliografia ) mostram que o mesmo ritual de liturgia purificadora, por incrível que pareça, repete-se em Atenas com a história de Teseu em Creta conquistando a liberdade e a democracia. Jeanmaire lembra a ‘Confessio de S. Cypriani’ ( AA. SS. Set VII p. 222 ) que estabelece uma relação entre a iniciação dos jovens infantes e a representação do combate contra Python : Cipriano foi dedicado a Apollo quando criança.

A Doloneia, Dolonia, é um episódio noturno da Ilíada que reproduziria a iniciação de Neoptólemo por Ulisses relata na peça de Sófocles, ‘Filoctetes’.

Pausânias descreve a pintura de Polygnoto ( pg 474 ) : “Polygnotos fez Neoptólemo o único grego ainda massacrando troianos porque toda a pintura foi encomendada para ficar acima do túmulo de Neoptólemo. Homero dá ao filho de Aquiles o nome Neoptólemo em toda sua poesia mas a Cipria diz que ele era chamado Pirro ( vivaz, enérgico, ruivo ) por Licomedes e Neoptolemos ( jovem soldado ) por Phoinix porque Aquiles era ainda bem jovem quando Neoptolemos começou a batalhar. Há um altar na pintura com um menino pequeno assustado segurando nele ; uma couraça de bronze descansa no altar. Este tipo de couraça era raro no meu tempo mas a usavam na antiguidade. Há duas peças de bronze, uma encaixando no tórax e nos músculos do estômago e a outra protegendo as costas ; eram chamadas ‘buracos’, ‘côncavos’ : uma entrando na frente a outra atrás e você as junta com as fivelas.”
Esta pintura existia na época de nosso Pirro do séc.III a.C. e por isto podemos entender o capítulo III de Plutarco em sua Vida de Pirro : “Tendo-se salvado e evitado a perseguição desta maneira [ o capítulo II fala da passagem de Pirro bebê pelas águas, plena de significados simbólicos também ] se dirigiram para a Iliria para a casa do rei Glaucias e estando ele sentado com sua esposa, puseram a criança no solo no meio deles. Começou o rei a sentir temor de Casandro [ rei da Macedônia ( 357-297 a.C. ) filho de Antípatro. Foi ferrenho inimigo de Alexandre Magno e inclusive se suspeita que o envenenou ( ano 323 a.C. ) ] que era inimigo dos Eácidas e ficou bastante tempo em silêncio consultando a si mesmo. Com isto Pirro, indo engatinhando até ele por impulso próprio lhe pegou o manto com as mãos e levantou-se ficando de pé nos joelhos mesmo de Glaucias, primeiro se pôs a rir e depois ficou com o semblante triste, como de quem roga e está em aflição, prorrompendo em choro. Alguns dizem que não se colocou aos pés de Glaucias mas que levantou-se na ara dos deuses e que se colocou de pé segurando nela com as mãos, o que Glaucias teve como um grande prodígio [ não é a imagem da pintura ?! ]. Fez pois a entrega de Pirro a sua esposa encarregando-a de criá-lo com seus filhos ; e reclamando-lhe daí a pouco os inimigos, não o entregou, ainda que Casandro o oferecesse duzentos talentos, e quando já tinha doze anos o acompanhou ao Epiro com tropas e o fez ser reconhecido rei. [ mas e a couraça ? Vemos em Satapatha Brahmana V, 3, 5, 25 que a roupa de iniciação pertence a Varuna e é disto que se trata pois a couraça é a roupa de iniciação do soldado que não veste mais seus membros sua roupa natural mas a roupa de Varuna. ] Resplende no semblante de Pirro a dignidade régia, sobressaindo mais, contudo, o temível que o majestoso. Não tinha o número de dentes que os outros mas acima tinha um osso apenas unificado, no que, como linhas retas, estavam aqueles desenhados. Diz-se que tinha a a virtude para curar aos que padeciam do baço, sacrificando um galo branco e apertando suavemente como pé direito o doente que devia estar deitado ; e ninguém era tão pobre ou desvalido que não participara desta graça se se apresentava a pedi-la. Tomava como prêmio um galo depois da sacrifício e o estimava muito. Diz-se também que o dedão do pé, o polegar, tinha igualmente uma virtude divina, de modo que queimado o corpo depois da morte, o dedo se encontrou ileso e intacto do fogo. Mas disto falaremos depois.”

Pirro = Pequeno Polegar : não vimos os Vedas no útero de Vritra ? Indra mesmo dentro do útero igual ao Pequeno Polegar tradicional ? Henri Jeanmaire em seu livro ( cf. bibliografia ) está com toda a razão : a criança iniciando-se na vida adulta com provas e purificações é o Pequeno Polegar em seus sucessivos úteros. Gaston Paris, ‘O Pequeno Polegar e a Ursa Maior’ em que ele precisa conduzir o carro da constelação do polo norte, imagem que o aproxima de Phaeton conduzindo e caindo com o carro do sol : de Phaeton fala o capítulo I da Vida de Pirro de Plutarco que foi o primeiro a reinar no Épiro vindo com os Pelasgos. Depois vieram Deucalião e Pirra que sobreviveram ao Dilúvio numa arca. Marie Delcourt ( cf bibliografia ) disserta largamente sobre estas duas purificações pelo fogo e pela água que teriam sido contemporâneas sendo que Phaeton teria caído na Etiópia depois foi para o Épiro. Lembra a doutrina estóica dos cataclismos pelos elementos, tipo de Sodoma e Gomorra ; a doutrina de Heráclito do fogo imortal que julgará e condenará todas as coisas. Enfim que a purificação pelos elementos aparece quando “Anchises fala a Enéas de uma alma ígnea que deve ser purificada pelos três elementos, ar, água, fogo. Os mistérios procuravam simbolicamente esta regeneração que serviria de prelúdio a uma imortalidade feliz” ( p. 88 ).

René Guénon em ‘O simbolismo da cruz’ fala sobre a serpente ( cf. bibliografia ) ; “Tomando o simbolismo da serpente enrolada ao redor d’árvore constatamos que esta figura é exatamente a da hélice traçada ao redor do cilindro vertical da representação geométrica que estudamos. Àrvore simbolizando o ‘eixo do mundo’, como dissemos, a serpente figurará pois o conjunto dos ciclos da manifestação universal ( daí a imagem do yin/yang ); e, com efeito, efetivamente o percurso dos diferentes estados é representado, em certas tradições,como uma migração do ser dentro do corpo desta serpente ( daí a figura do ouroboros a serpente mordendo a própria cauda : ‘quem quiser ser o primeiro seja o último e o servo de todos’, etc. ). Como este percurso pode ser visto seguindo dois sentidos contrários, seja no sentido ascendente, para os estados superiores, seja no sentido descendente, para os estados inferiores, os dois aspectos opostos do simbolismo da serpente, um benéfico e outro maléfico, se explicam por eles mesmos ( daí a imagem do caduceu de Hermes que é também hindu ). (…) Podemos ver um aspecto em que a serpente figura o encadeamento do ser à série indefinida dos ciclos de manifestação – é o samsâra buddhista, a rotação indefinida da ‘roda da vida’ da qual o ser deve se libertar para atingir o Nirvana. O apego à multiplicidade é também, em certo sentido, a ‘tentação’ bíblica, que afasta o ser da Unidade central original e impede de atingir o fruto da ‘árvore da vida’ ; e é bem por ela, efetivamente, que o ser está submetido á alternância das mutações cíclicas, isto é, ao nascimento e morte. Este aspecto corresponde exatamente ao papel da serpente ( ou do dragão que lhe é então equivalente ) como guardião de certos símbolos de imortalidade do qual defende a aproximação : é assim que vemos enrolada na árvore dos pomos de ouro do jardim das Hespérides ou da castanheira da floresta da Cólquida na qual está suspensa a ‘pele do carneiro de ouro’ ; é evidente que estas árvores não são outra coisa que formas da ‘árvore da vida’ e que consequentemente representam ainda o ‘eixo da mundo’”.

O mesmo autor em ‘O rei do mundo’ diz o seguinte : “Voltemos ao termo hebraico Luz e às suas múltiplas significações : comumente significa ‘amêndoa’ ( e também designa ‘amendoeira’ designando por extensão àrvore e o fruto ) ou ‘núcleo’ [ a ‘mandorla’ ‘amêndoa’ da tradição iconográfica cristã ], como se sabe, o núcleo é o que existe de mais interior, de mais oculto, de mais fechado, donde a ideia de ‘inviolabilidade’. Dá-se também este nome a uma partícula corpórea indestrutível, representada simbolicamente como um osso muito duro, ao qual a alma permanece unida depois da morte até a ressurreição.Tal como o núcleo contém o germe e o osso a medula , Luz contém em si os elementos virtuais necessários à restauração do ser ; … sendo imperecível ( em sânscrito o termo akshara significa ‘indissolúvel’ e por consequência ‘imperecível’ ou ‘indestrutível’; designa a sílaba elemento primeiro e germe da linguagem e aplica-se por excelência ao monossílabo ‘Om’ que é dito conter, em si a essência do triplo Veda ) Luz é no ser humano o ‘núcleo da imortalidade’, tal como o lugar designado pelo mesmo nome é a ‘morada da imortalidade’. … Luz é situada na extremidade inferior da coluna vertebral, o que podendo parecer imediatamente estranho, se compreende melhor se estabelecermos uma comparação com o quê a tradição hindu diz da força chamada kundalini ( kundalini significa enrolado em forma de anel ou espiral ; este enrolamento simboliza o estado embrionário e ‘não desenvolvido’.) que é uma forma da shakti considerada como imanente ao ser humano. Esta força é representada sob a forma de uma serpente enrolada sobre si mesma, numa região do organismo sutil que corresponde precisamente a extremidade inferior da coluna vertebral; pelo menos assim acontece no ser humano normal, mas, pelo efeito de determinadas práticas, tais como a da hatha yoga, ela acorda, desenvolve-se e eleva-se através das ‘rodas’ ( chakras ) ou ‘lótus’ ( kamalas ) correspondentes aos diversos plexus, até atingir a região correspondente ao ‘terceiro olho’, o olho frontal de Shiva. Este estágio representa a restituição ao ‘estado primordial’ em que o ser humano recupera o ‘sentido da eternidade’ e através do qual alcança aquilo a que já chamamos imortalidade virtual. Até lá, continuamos ainda num estado humano ; numa fase posterior, a kundalini atinge finalmente a coroa da cabeça ( brahmarandhra ) - é está última fase que corresponde a conquista efetiva dos estados superiores do ser. Pode-se pois concluir desta comparação que a localização de Luz na parte inferior do organismo se refere unicamente à condição de ‘homem pecador’...” .

Não só o dedão do pé / Pequeno Polegar explica-se como também explica-se a morte de Pirro pela telha relata em Plutarco, Vida de Pirro, XXXIV, o último capítulo – sim, a morte pela telha que uma velha anciã jogou do telhado em Argos ( ele ia bater no filho dela ) pegando-o sem a coroa e matando-o, é esta passagem pelo brahmarandhra, pela coroa da cabeça, e sim, as outras etapas da vida do Eácida são as diferentes fases da vida humana descritas por R. Guénon até que finalmente ele se liberta. O terceiro olho seria seu cavalo atingido e morto de frente em Esparta quando atacava a cidade anteriormente, morto por uma saeta, flecha, de Creta.

Citemos, cotejemos, Ananda Coomaraswamy, sobre o tema em ‘Atmayajña’, pg 401 : “Vimos que a conquista de Ahi-Vritra, a morte e o alimentar-se do Dragão, não é que o domínio do si-mesmo pelo Si-mesmo ; e que a oferta-ao-fogo é símbolo e deve ser o fato desta conquista. ‘Aquele que faz a oferta-de-fogo ( agnihotram ) despedaça a armadilha da cobiça, corta fora ilusão e desfaz a raiva’ ( MU VI. 38 ).” ( // ‘Nirvana é destruir luxúrias, destruir raivas, destruir ilusões.” ) e pg 399 : “E verdadeiramente os que compreenderam isto anteriormente se abstêm de fazer uma real oferta de fogo ( agnihotram na juhuvam cakrub ). Deste mesmo ponto de vista que o Buddha ( S. II, 106 etc ; M. I, 77 ) … pronuncia ‘Não empilho lenha para altar de fogo ; acendo uma chama dentro de mim ( ajjhatam = adhyatmikam ), o coração lareira ( the heart the hearth ), a flama nele o si-mesmo dominado ( atta sudanta, S.I. 169; i.e. saccena danto, S.I. 168 = satyana dantah ).”

O dragão, serpente, então é a alma sensível que é destruída. Vimos no começo a destruição da casa de Vritra, que se repete no ritual iniciático de Delphos / Atenas de destruir a cabana de madeira e virar a mesa. A caverna, o ‘ventre’ de Vrtra, é a ‘matriz de Brahma’ a partir da qual todas as coisas são produzidas em princípio, i.e., todo começo : “… o Pai e o Filho, o Dragão e o Herói Solar, ainda que aparentemente em oposição são secretamente unidos, são um e consubstanciais” ( A. Coomaraswamy, Angels and Titans, pg 74 ). “A tentação de Naciketas por Mrtyu, Yama, em nosso texto [ Katha Upanishad onde é relata a história de Naciketas que desce ao reino do mortos e é tentado pela Morte, história que se repete com Varuna e seu filho Bhrigu em Satapatha Brahmana XI, 6, 1 e com Sunasepa junto de Varuna, em história relata ritualmente no rajasuya mesmo ] corresponde a tentação de Mara em J. I, 63 ( oferta da soberania universal ) e J. I, 78 (filhas de Mara ) e a Mateus IV, 8, 9 ‘te darei todas estas coisas, se...’ e a tentação da ‘serpente’ no Gênesis. O Tentador ( seja Amor ou Morte, Satan ou Serpente ) é sempre um e o mesmo Pai Titã de quem procede Agni que dá adeus em rV X, 12, 3-4 e o Tentado sempre o ‘Ser Humano’ solar (…) O caráter virtualmente idêntico das três tentações,aquelas do Buddha, do Cristo e de Naciketas empresta, dá apoio adicional à visão que Katha Upanishad é a história não tanto especificamente de um ‘sacrifício humano’ mas dos acordos do Ser Humano Universal com a Morte ; ou se desejarmos evitar esta conclusão, é manifesto pelo menos que a transação de Naciketas com a Morte é um ‘tipo’ de conquista da Morte pelo Ser Humano Universal, no mesmo sentido que o sacrifício de Abraão é ‘tipo’ do sacrifício do Filho do Homem.”

E aqui podemos voltar para Plutarco, Vida de Pirro, II sobre a travessia do rio que Pirro bebê precisou enfrentar. O historiador francês Jean Gagé escreveu quatro artigos intitulados ‘Pyrrhus e a influência religiosa de Dodona na Itália primitiva’ ( cf. bibliografia ) : lendo estes artigos entendemos porque comparar Pirro = Varuna justamente porque Tarento, Crotona, o sul da Itália em geral e a Sicília são Magna Grécia ainda nesta época depois tornam-se latinas, Crotona é destruída : Pitágoras de Crotona é exilado e sua ordem perseguida ou transferida para Roma mesmo. Euclides e Arquimedes podemos dizer são contemporâneos de Pirro : é o apogeu da cultura da Magna Grécia ( é o lado Mitra do Varuna Pirro ) : além destes três houve Alcmeon de Crotona, Filolau de Crotona, Arquitas de Tarento, Lisis de Tarento, etc. Arquimedes ao descobrir o peso específico dos metais está descobrindo a tabela periódica dos elementos. A geometria de Euclides ainda está em todas as salas de aula apesar de toda álgebra moderna. Pitágoras mesmo ‘fala como da Pítia’ é fundador desta ordem religiosa científica e que como já vimos é tradicional semelhante as do oriente contemporâneas, unidas a elas, tese que explicitamente defendemos. J. Gagé não fecha os olhos para Numa estudando em Crotona pitagórica, muito pelo contrário mostra a semelhança de doutrina do segundo rei de Roma ( que construiu legislativamente a cidade ) com Pitágoras e o oriente de modo geral seja no vegetarianismo, seja no silêncio, seja na transmigração d’alma, seja no estar plenamente atento ( a plena atenção ), seja na unidade com a natureza para produzir o conhecer, o céu, as aves, o rio, as árvores, o vento, etc : a pedra que é o centro do mundo, o rio, fonte, que sai dela, a árvore da vida, os pássaros do céu. É assim que J. Gagé interpreta o capítulo II da Vida de Pirro como um acontecimento simbólico : o bebê perseguido chega a margem do rio fugindo, as águas estão turbulentas, os que o carregam precisam falar com os que estão na outra margem, escrevem numa cortiça explicando tudo, lançam-na amarrada em uma pedra para dar impulso ao tiro da flecha, quando os do outro lado entendem cortam troncos e fazem uma ponte “… e fez a causalidade que o primeiro que passou para o outro lado e pegou o menino chamava-se Aquiles.” Ou seja pai de Pirro, Aquiles; ponte entre pai e filho. J. Gagé vê na cortiça que boia, flutua, e ao mesmo tempo livro, lugar de escrever, um ente simbólico presente no nome de Crotona, cortona, e em ‘cortumio’ de Varro, L.L. VII, 9, cor + tueri : intuir de coração.

Vejamos A. Coomaraswamy, ‘Some Pali Words’, Samudda ( como ‘adhivacanam’ de ‘nibbana’ ). No buddhismo como no brahmanismo, o ‘caminho’ do Peregrino considerado como uma viagem ( ‘yana’ neste sentido ) pode se relacionar a três caminhos diferentes no fluir do rio da vida e da morte. A jornada é ou subindo a corrente para a fonte d’água ; ou através das águas para a outra margem ; ou descendo a corrente para o mar … Mais familiar é o simbolismo da ‘outra margem’ a ser alcançada de várias maneiras seja com balsa, um barco, ponte ou passagem, em conexão com o qual encontramos uma grande variedade de termos tais como tara, tarana, tiram, tirtha, tratr, etc derivando de ‘tr-’, ‘atravessar’ ( nota : ‘tirtha’ é ‘lugar de travessia’ ; ‘tirthankara’ virtualmente sinônimo de ‘pontifex’, pontífice, que faz ponte. Tara é salvadora e também ‘estrela’, cf. a Virgem como Stella Maris. Tratr é barqueiro ou salvador. Tarana é ‘travessia’ ; daí ‘avatarana’, ‘cruzando de volta’, i.e. a ‘descida’ de um Salvador. Tiram é ‘travessia’ em S. 5, 24 onde temos ‘Poucos são os mortais que alcançaram a outra margem.” Nosso termo latino ‘terminus’ é cognato. Neste caso as Águas a serem atravessadas são especificamente o Rio da Morte ( M. 1, 225-7 ; DhA 2, 275, etc) ou como mais completamtne explicado em S. 4, 174-5 o Grande Dilúvio de Água ( maha udakammavo ) é o dilúvio da vontade, nascimento, opinião e ignorância ( kama, bhava, ditthi, avijja ), a Margem de Cá representa ‘encorporamento, encorporação’ (sakkaya ), a Margem de Lá ‘nibbana’ e o “Brahman que atravessou e alcançou o outro lado e permanece em solo firme” ( tinno paramgato thale tithati brahmano ) é o Arahat. A fórmula de atravessar para a margem outra segura ocorre repetidamente no contexto buddhista e brahmanista igualmente, de modo que exemplos mais não precisa. A metáfora de um ‘barco’ salvador ( Pali e Skr. Nava )está preservada em nossa ‘nave’ ( de uma igreja ). ( … ) Este valor de ‘samudda’ ( mar ) em S. 5, 39-40 encontramos “como rios tendem, inclinam e gravitam para o mar” ( samudda-ninna, -pona, -pabhara ) igualmente o Oferente que cultiva o Nobre Caminho Óctoplo “… inclina, tende, gravita para Nibbana” ; similarmente S. 5, 134 // S. 4, 179-180. As palavras -ninna, -pona, -pabbhara ou seus equivalentes ‘mutatis mutandi’ ocorrem em outros lugares notavelmente na bem conhecida metáfora dos caibros que convergem em direção e descansam no telhado do domo e á assim que os poderes d’alma convergem em direção e descansam em samadhi ( M. 1, 322-323, Mil. 38, etc ).” Ou seja explicação da morte pela telha à qual soma-se outros três relatos de arhats elevando-se nos ares e fazendo a saída da casa quebrando através da ‘kannika’, do telhado : Jataka 424, Jataka 31, Jataka 418 e principalmente Jataka 396 onde o Bodhisatva explica em uma parábola : a ‘kannika’ e os caibros são como o rei e os seus ministros e amigos. Se não houver ‘kannika’, os caibros não permanecerão, se não houver caibros, não há nada para suportar a ‘kannika’ ; se os caibros quebram a ‘kannika’ cai ; justo o mesmo no caso de um rei e seus ministros ( pg 236, O simbolismo do Domo, A. Coomaraswamy ; na pg 205 o eixo do mundo no chão da lareira onde foi pregada a cabeça da serpente e subindo até o alto da chaminé : a morte de Neoptólemo em Delphos ).

Há mais ocorrências orientais na ‘Vida de Pirro’ de Plutarco : a famosa conversa entre Pirro e Cinéas o sofista seu porta-voz em que lhe questiona sobre até quando conquistar, guerrear, depois de Roma e a Itália, a Sicília, Cartago e África, etc se não era melhor sentar e ficar dentro do próprio reino. Plutarco mesmo já falara da doença que é a cobiça como vimos. E o tema repete-se neste capítulo XIV : o XV já mostramos é a travessia fatídica. Esta conversa acontece nos Jatakas 467 e 228 e neste último as cidades das conquistas são a do Mahabharata, que como mostra G. Dumèzil é o imaginário da ‘Vida de Publícola’ de Plutarco, o fim da monarquia e a instalação da república com os heróis do Mahabharata, p. ex. no cap. XIV, Horácio Cocles, o caolho na ponte, seria Dhrtarastra / Odin – a mesma figura aparece na Vida de Pirro cap. XIX, a do velho cego que entra no Senado e lembra aos romanos sua valentia : Cinéas diria então que o Senado parecia uma reunião de reis. Deste ‘samraja’ fala Bharata no Ramayana para não fazer o ‘rajasuya’, sarga LXXXIII já no final do épico :
A esta ordem de Rama, aquele que o karma que não desmerecia, o guardião chamou aos dois jovens príncipes e voltou a informar disto seu Amo. Este vendo perto de si Bharata e Lakshmana, abraçou as dois e logo lhes disse : “Cumpri lealmente a missão sem igual do Duas-vezes-nascido. Agora quero, também, rodear a lei de sua defesa, oh! Filhos de Raghú !A lei é indestrutível e imutável de tal modo sua barreira é formidável, a meu juízo, e proclamar a lei é destruir todos os males. Acompanhado de vocês, que sois outro eu mesmo, desjo proceder ao importantíssimo sacrifício da consagração real pois isto é um dever imprescritível. Foi através da oferta do rajasuya, que Mitra, açoite de seus inimigos, por meio desta rica oferenda, deste belo sacrifício, chegou a qualidade de Varuna. E Soma, tendo oferecido também o rajasuya, segundo a lei, que conhecia a fundo, conseguiu nos três mundos um renome e um posto duradouros. Neste dia, o que convém mais, pensem nisto comigo; o quê agora é útil e vantajoso para o porvir, dí-me-lo, sinceramente.”
Assim falou Raghava, Bharata, orador hábil, fazendo o anjali, lhe dirigiu esta resposta : “Em ti reside o dever supremo, irmão, querido ; é em ti que toda a Terra encontra apoio ; em ti aninha a glória, herói dos grandes braços, de valentia sem medida. Os soberanos do Mundo, tais os Imortais Prajapati, te consideram todos assim como nós, o protetor poderoso do Universo. Os filhos te olham como a um pai, Ó valoroso príncipe ! Hás chegado a ser a salvação da Terra e também dos seres vivos, Raghava. Como poderias tu, Senhor, cumprir um sacrifício deste gênero, em que aparece a exterminação em este mundo das raças principescas ? Estes guerreiros, Oh rei !, que chegam a ser heróis na Terra, seria sua destruição total e isto causa a universal reprovação. Oh tigre os guerreiros ! Oh tu que por causa de tuas virtudes não tens igual em quanto ao poder, não destruas o Mundo, que te está submetido inteiramente !”
Quando ouviu a Bharata falar deste modo, suave como o amrita, Rama, herói leal, sentiu uma alegria sem igual. E deu esta resposta àquele que aumentava a felicidade de Kaikeyi : “estou contente, estou encantado com o quê acabas de dizer, Ó herói irreprovável ! Estas palavras firmes, conforme o dever, que proferistes, Ó tigre dos heróis!, são a salvaguarda da Terra. O propósito que eu tinha de proceder ao grandíssimo sacrifício do rajasuya, a ele renuncio graças a teu excelente conselho, Ó virtuoso Bharata ! Um ato prejudicial ao Mundo, os sábios não devem realizá-lo ; por outro lado, uma boa palavra ainda que vinda de uma criança, sabe-se acolhê-la, Ó irmão maior de Lakshmana ! Por conseguinte, sigo teu conselho, que é bom, que é judicioso Ó valoroso príncipe.” O épico então conta a história de Vrtra e do sacrifício do cavalo, o ‘aswamedha’ que então realizam no lugar do ‘rajasuya’.
O principal contudo é a atualidade do tema no Evangelho de s. João 2-3, onde o evangelista fala da primeira Páscoa de IHS em Jerusalém, fala de IHS virando a mesa, quebrando a casa toda, da purificação pela água e pelo fogo, do nascer de novo uma segunda vez, do filho do homem que desceu do céu, da serpente regeneradora, etc :
Estando próxima a Páscoa dos judeus, IHS subiu a Jerusalém, no templo encontrou os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados. Tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do Templo com as ovelhas e com os bois ; lançou ao chão o dinheiro dos cambistas e derrubou as mesas e disse aos que vendiam pombas : “Tirai isto daqui ; não façais da casa do meu pai uma casa de comércio.” Recordaram-se seus discípulos do que está escrito : ‘O zelo por tua casa me devorará’ [ Elias perseguido cf. Livro dos Reis ].
Os judeus interpelaram-no dizendo : “Que sinal nos mostras para agires assim ?” Respondeu-lhes IHS : “Destruí este templo e em três dias euo levantarei.” Disseram-lhe os judeus : “Quarenta e seis anos foram precisos para construir este templo e tu o levantarás em três dias ?” ele porém falava do templo do seu corpo. Assim quando ele ressuscitou dos mortos seus discípulos lembraram de que dissera isto e creram na Escritura e na palavra dita por IHS.
Nicodemos vai à noite até IHS e este lhe diz : “Se após a primeiras angústias de um segundo nascimento o homem mortal não é engendrado uma segunda vez ele não pode ver o reino eterno da corte celeste.” Nicodemos manifestou sua surpresa ; “Como após a velhice com cabelo branco um homem pode sofrer a provação de um novo nascimento ?” IHS para ensiná-lo respondeu :
Se o homem purificando seu corpo por banhos regeneradores não recebe do Espírito divino e da água uma segunda e nova origem, imagem espiritual do nascimento que tem da mulher, este homem não pode conhecer a celeste recompensa preparada na eternidade sem fim. Pois tudo aquilo que possui entranhas humanas sobre a terra, criado por uma carne mortal, é carne humana ; mas aquele que é divino, purificado pela água do banho no Espírito nascido de si-mesmo ( autogonoio ), é espírito vivificante e por uma lei fora da geração, torna-se germe espontâneo [ o núcleo da imortalidade ] de um novo nascimento. Não vos espanteis deste mito inspirado por Deus, quando vos digo que é necessário recomeçar a carreira da vida pela renovação da Água. O Espírito que se agita sob um esforço invisível, sabe soprar onde ele quer e vós escutais de perto o barulho de sua voz, a quem Deus faz atravessar os ares para chegar a suas orelhas ; mas seus olhos não percebem nem de onde ela vem, nem para onde ela vai. Tal é a imagem de todo homem que o Espírito há engendrado por uma chama líquida e não por um grão de poeira.” Ele disse e Nicodemos respondeu : “ Como tudo isso ode ser ?” E XTO replicou com seu oráculo divino ( theskelon omphén ) : Sois mestre em Israel e ignoras isto ?! O sentido vos escapa e vós não sabeis mais o que quero dizer. Em verdade, em verdade ( amén, amén ) recebeis ainda este sólido testemunho : aquilo que sabemos ser a verdade cheia de divinos oráculos ( omphés ) falamos alto e semeamos de nossos lábios verídicos nos ouvidos rebeldes dos seres humanos ( ouata dysmaka photon [ photo, luz, serve em grego para designar o ser humano, como um fogo uma casa nos tempos coloniais ; ouata é igual a ouvido ]). Ora tudo aquilo que meus olhos viram no meu Pai, o mestre dos céus, nós ensinamos por uma palavra que tem ciência e é digna de fé. Mas o espírito intratável dos mortais indóceis não recém meu testemunho fiel ; e se, quando disser qualquer coisa das vãs obras terrenas seus ouvidos permanecem totalmente incrédulos, vosso espírito inexperiente acreditará quando escutar falar dos elementos celestes e invisíveis, se contar do exército que voa e das obras do céu ? Jamais mortal pisou com seus pés aéreos os inacessíveis contornos dos céus, senão o divino filho único do homem, que desceu do alto, sua morada, para encadear sua forma imortal à carne, ele que reside no palácio estrelado de seu Pai e habita o firmamento eterno ( aiônios ethéra ). E como na beira do caminho sobre uma rocha deserta Moisés elevou a serpente maléfica aos humanos ( óphin delémona photôn [ novamente photo igual a ser humano ; ophin, ofídio ] ) que o havia mordido e a colocou em uma forma fictícia em anéis de bronze, assim o filho do homem é o mortal, a serpente, exaltado deve aparecer a face humana, para acalmar os sofrimentos maus que os consomem, afim de que aquele que o recebe na condição de uma fé sincera, goze da paz da vida que será a glória humana no curso da eternidade indestrutível ( ou longas barbas enroladas na eternidade inabalável ).
Pois o rei dos céus amou este mundo inconstante e diverso ao ponto de dar ao universo inteiro o Verbo seu filho único, benfeitor dos mortais, afim de que aquele que o receber, renunciando a mobilidade da sua crença e curvando voluntariamente sua cabeça sob uma inabalável fé, entre no coro eterno da vida celeste e habite uma casa imperecível na floresta do paraíso. Não, Deus não deu ao mundo o verbo filho do pai para julgar o mundo antes do tempo mas para ressuscitar ( anastéseie ) a raça humana toda inteira que sucumbia. Assim pois aquele que o apazigua pela submissão de um coração constante e que jogando aos ventos dos ares sua incredulidade cega, se fortalece na fé, não é julgado ; mas aquele que tendendo ( titaínon ) para a carne humana um olhar de razão esfacelada, ousa abrir a boca para se opor a Deus, este é julgado, porque não admitiu a fé em sua alma rebelde a persuasão e que não há mudado de pensamento, nem crido no nome do rei bem amado, filho altíssimo de deus pai. Tal é a sentença que mereceu já antes este mundo inato. Pois a luz ( phéggos cf. pháos, phaíno ) veio do céu para a terra e a geração volúvel dos homens preferiu a obscuridade a seu brilho ; esta raça desejou menos a luz que as trevas porquê suas obras são equívocas. Todo homem, em efeito, que comete iniquidades dignas da noite, odeia voluntariamente a luz e não anda nunca para ou ao seu lado, temendo que sua luminosidade revele as obras que realizou, dissimulando-as sob um misterioso silêncio. Aquele ao contrário que se consagra todo inteiro e sinceramente à verdade avança por si mesmo para manifestar os atos que executa pela vontade de Deus.”



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