segunda-feira, 15 de maio de 2017

502 Buddha Ganso Dourado





             ( Pintura de Ajanta com a reprodução em desenho de Monika Zin ; note-se no canto o caçador carregando os dois pássaros na vara de levar coisas ; clique na imagem para vê-la ampliada )

502
Lá vão os pássaros...etc.” - Esta história o Mestre contou enquanto residia no Bosque de Bambu sobre a renúncia à vida por Ancião Ananda. Então os Irmãos também estavam conversando no Salão da Verdade sobre as boas qualidades do Ancião, quando o Mestre entrou e perguntou-lhes o quê falavam lá sentados. Ele disse, “Esta não é a primeira vez, Irmãos, que Ananda renunciou sua vida por mim mas ele fez o mesmo antes.” E então ele contou-lhes uma história do passado.
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Certa vez reinava em Benares um rei chamado Bahuputtaka, ou Pai de muitos filhos e sua Rainha Principal era Khema. Naquele tempo o Grande Ser morava no Monte Cittakuta e era o chefe de noventa mil gansos selvagens, tendo vindo à vida como um ganso dourado. Naquele tempo, como já foi dito, a rainha teve um sonho, e contou ao rei que concebeu o desejo feminino de ouvir o discurso do Ganso Dourado sobre a Lei. Quando o rei questionou se haviam tais criaturas como gansos dourados, lhe foi dito que sim, havia no Monte Cittakuta. Então ele construiu um lago que chamou de Khema e fez com que se plantasse todo tipo de milho e diariamente nos quatro cantos se proclamava imunidade e enviou um caçador para pegar gansos. Como esta pessoa foi enviada, sua observação dos pássaros, como novidades foram contadas ao rei quando os gansos dourados chegaram, a maneira como a armadilha foi montada e o Grande Ser pego nela, como Sumukha capitão chefe dos gansos não o viu nas três divisões de gansos e retornou, tudo isto será estabelecido no Jataka 534 ( onde o nome de Dhatarattha também é dado ao Grande Ser ). Bem, como então o Grande Ser foi pego no laço e na armadilha e quando estava mesmo pendurado no laço na extremidade da armadilha , ele esticou o pescoço olhando o caminho que os gansos tomaram e percebendo Sumukha enquanto ele vinha, pensou, “Quando ele chegar vou colocá-lo em teste.” Então quando ele chegou, o Grande Ser repetiu as três estrofes :

Lá vão os pássaros, os gansos vermelhos, todos tomados de medo :
Ó dourado Sumukha, parta ! Que queres aqui ?

Meus amigos e parentes me largaram, todos voaram para longe,
Sem pensar voaram embora : por quê só você ficou ?

Voe, nobre pássaro ! Com prisioneiros não pode haver amizade :
Voe, Sumukha ! Não perca a chance enquanto ainda podes ser livre.

Ao o quê Sumukha respondeu, pousando na lama -

Não, não te deixarei, Ganso Real, quando problema se aproxima :
Mas permanecerei e a seu lado viverei ou morrerei.

Assim falou Sumukha, em tom leonino ; e Dhatarattha respondeu com esta estrofe:
Um coração nobre, bravas palavras são estas, Sumukha, que dizes :
Foi apenas para te testar que te mandei voar de volta.

Enquanto estavam assim conversando juntos, sobe o caçador cajado nas mãos para o topo a toda velocidade. Sumukha encoraja Dhatarattha e voa para encontrar o homem, respeitosamente declarando as virtudes do pássaro real. Imediatamente o coração do caçador amoleceu ; o quê, percebendo Sumukha, o faz voltar e permanecer encorajando o rei dos gansos. E o caçador aproximando-se do rei dos gansos, recitou a sexta estrofe :

Pisam nele por caminhos que não se pisa, pássaros voando no céu :
E você, Ó nobre Ganso, não espreitou de longe a armadilha ?

O Grande Ser disse :

Quando a vida está chegando ao fim e a hora da morte se aproxima,
Apesar de você estar em cima, nem armadilha nem laço você vê.
( este gatha, verso, aparece nos Jatakas 164 e 399 )
O caçador, feliz com a colocação do pássaro, então falou três estrofes para Sumukha.

Lá vão os pássaros, os gansos vermelhos, todos tomados de medo :
E você, Ó ave dourada, ainda está parada esperando aqui.

Eles comem e bebem, os gansos vermelhos : despreocupados eles voaram ;
Dispararam através dos ares e você foi deixado só.

O quê é esta ave, que enquanto o resto deixando-o voou
Apesar de livre, você se junta ao prisioneiro – por quê ficaste só ?

Sumukha respondeu :

Ele é meu camarada, amigo e rei, querido como minha vida ele é :
Abandoná-lo – não, nunca o farei, até a morte me chamar.

Escutando isto o caçador ficou muito agraciado e pensou consigo mesmo - “Se eu machucar criaturas virtuosas como estas, a terra abriria e me engoliria. Que me importa o prêmio do rei ? Os colocarei em liberdade.” E ele repetiu uma estrofe :

Vendo agora que pelo bem da amizade estás preparado para morrer,
Liberto teu rei e camarada, para te seguir em voo.

Isto dito, ele jogou para baixo Dhatarattha da armadilha e soltou o laço e o levou para a margem e piedosamente lavou seu sangue e recolocou os músculos e tendões deslocados. E em razão da gentileza de seu coração e pelo poder das Perfeições do Grande Ser, no mesmo instante sua pata ficou curada e nem marca ficou no lugar que foi pego. Sumukha contemplou o Grande Ser com alegria e agradeceu com estas palavras :

Com todos seus parentes e amigos, Ó caçador, seja feliz,
Como estou feliz vendo o Rei dos pássaros livre.

Quando o caçador escutou isto, ele disse, “Agora você deve partir amigo.” Então o Grande Ser disse a ele, “Você me capturou para fins próprios, meu bom senhor, ou devido a ordens de outro ?” Ele contou-lhes os fatos. O outro ponderou se era melhor retornar para Cittakuta ou ir até a cidade. “Se eu for até a cidade,” ele pensou, “o caçador será premiado, o desejo da rainha será realizado, a amizade de Sumukha será conhecida, e também pela virtude de minha sabedoria receberei o lago Khema, como presente. É melhor portanto ir até a cidade.” Isto estabelecido, ele disse, “Caçador, leve-nos na sua vara de levar coisas até ao rei e ele me libertará se quiser.” - “Meu senhor, reis são duros ; sigam seus caminhos.” - “O quê ? Apaziguei um caçador como você e e não encontraria favor em um rei ? Deixe isto comigo ; sua parte, amigo, é transportar-nos até ele.” O homem fez isto.

Quando o rei colocou seus olhos nos gansos ele ficou deliciado. Colocou ambos num poleiro dourado, deu-lhes mel e grãos fritos para comer e água adocicada para beber e com as mãos postas em súplica pediu-lhes que falassem da Lei. O rei dos gansos vendo quão ansioso ele estava para escutar, primeiro dirigiu-se a ele em palavras agradáveis. Estas são as estrofes expressando a conversa do rei e do ganso um com o outro.

Tem sua excelência, saúde e riqueza e o reino cheio
De bem-estar e prosperidade e justamente legislado ?

Ó aqui temos saúde e riqueza, Ó Ganso, e aqui reino cheio
De bem-estar e prosperidade e justa e retamente legislado.

Não há mancha à vista no meio da tua corte e estão teus inimigos
Distantes, como a sombra no sul, que nunca cresce ?

Não há mancha à vista no meio dos meus cortesãos e meus inimigos
Distantes como a sombra no sul, que nunca cresce.

E tua rainha de linhagem igual, obediente, melíflua,
Fértil, bonita, famosa, acompanha seus desejos, realizando cada um ?

Ó sim, minha rainha de linhagem igual, obediente, melíflua,
Fértil, bonita, famosa, acompanha meus desejos, realizando cada um.

Ó legislador criador ! Tens filhos muitos, nobremente criados,
Espertos, homens fáceis de agradar em qualquer coisa que sejam enviados ?

Ó Dhatarattha ! Filhos tenho de fama, cinco e mais um :
Diga-lhes seus deveres : não deixaram seu bom conselho desfeito.

Escutando isto, o Grande Ser deu-lhes conselhos em cinco estrofes :

Aquele que adia até muito tarde o esforço de fazer o bem,
Apesar de nobremente criado, com virtude dotado, ainda assim afunda debaixo da correnteza.

Seu conhecimento murcha, grande perda a sua ; como a cegueira noturna
Vê todas as coisas cheias duplamente em seu tamanho com a visão imperfeita.

Quem vê a verdade em falsidade não ganha sabedoria nenhuma,
Como em um caminho montanhoso escarpado o cervo frequentemente cairá.

Se um homem corajoso qualquer ama virtude, segue o correto,
Então mesmo um casta baixa, ele queima como fogueira na noite.

Usando esta similitude explique todas as verdades da sabedoria,
Cuidando de seus filhos até crescerem sábios, como árvore nova na chuva.

Assim o Grande Ser discursou para o rei toda a noite. O desjo da rainha foi apaziguado. Àurora ele o estabeleceu nas virtudes dos reis e o exortou a ser vigilante, então com Sumukha voou para fora pela janela norte a caminho do Cittakuta.

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Após este discurso, o Mestre disse, “Assim, Irmãos, este homem ofereceu sua vida por mim antes,” e então ele identificou o Jataka : “Naquele tempo Channa era o caçador, Sariputra o rei, uma irmã era a Raninha Khema, a tribo Sakiya era o bando de gansos, Ananda era Sumukha e eu mesmo o Rei Ganso.”

















sábado, 18 de março de 2017

501 Buddha Cervo



                    ( Pintura de Ajanta, vihara buddhista, Índia )

501
Com medo da morte ...etc.” - Esta história o Mestre contou enquanto residia no Bosque de Bambu sobre o reverendo Ananda, que fez a renúncia de sua própria vida. Esta renúncia será descrita no Jataka 533, o Amansar de Dhanapala. Quando este reverendo senhor renunciou sua vida pelo Mestre, fofocaram sobre isto no Salão da Verdade : “Senhores, o reverendo Ananda, tendo se mantido no conhecimento detalhado do curso de treinamento religioso, renunciou sua vida pelo Dasabala.” O Mestre entrou e perguntou o que falavam lá sentados. Eles disseram. Ele disse, “Irmãos, esta não é a primeira vez que ele entrega sua vida por mim ; ele o fez antes.” Então ele lhes contou uma história do passado.
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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), sua esposa principal se chamava Khema. Naquele tempo o Bodhisatva nasceu na região do Himalaia, como um cervo : dourado ele era e belo, e seu irmão mais novo chamava-se Citta-miga, ou Malhado cervo, também era da cor do ouro e também sua irmã mais nova Sutana. Bem o nome do Grande Ser era Rohanta e ele era rei dos cervos. Atravessando duas cadeias de montanhas, na terceira ele vivia ao lado de um lago chamado Lago Rohanta e cercado por sua horda de oitenta mil cervos. Ele tinha o costume de amparar os pais, que eram velhos e cegos.

Bem, um caçador, que vivia numa vila de caçadores próxima a Benares, veio aos Himalaias e viu o Grande Ser. Ele retornou para sua cidade e em seu leito de morte disse a seu filho, “Meu garoto, em tal lugar de nosso chão de caça há um cervo dourado ; se o rei perguntar você deve contar para ele.”

Um dia Rainha Khema, aurora, teve um sonho e este era ele. Um cervo dourado sentado em um assento dourado e ele discursava para a rainha sobre a Lei com voz melíflua, como o som de um sino dourado tinindo. Ela escutou com grande prazer a este discurso mas antes que o discurso estivesse terminado o cervo levantou-se e saiu ; e ela acordou, gritando - “Peguem o cervo !”. As empregadas, escutando seu grito, caíram na gargalhada. “A casa está fechada, portas e janelas ; nem mesmo uma lufada de vento pode entrar e ainda assim a senhora grita para apanhar o cervo para ela !” Neste momento ela entendeu que era um sonho. Mas disse para si mesma, “Se eu falar, é um sonho, o rei não vai dar importância ; mas se eu disser que é desejo de mulher o rei vai dar com toda atenção. Escutarei o discurso do cervo dourado !” Então ela deitou se fazendo de doente. O rei veio : “O quê há de errado com minha rainha ?” ele disse. “Oh meu senhor, apenas um desejo natural.” - “O quê você deseja ?” - “Desejo escutar o discurso do justo cervo dourado.” - “Por quê, minha senhora, o quê anelas não existe : não há tal coisa como um cervo dourado.” Ela disse, “Se eu não conseguir isto, morro aqui mesmo.” Ela virou as costas para o rei e permaneceu deitada. “Se houver algum, será pego,” disse o rei. Então ele questionou seus cortesãos e brahmins, justo como no Jataka do Pavão, 129, se havia tal coisa como um cervo dourado. Descobrindo que havia, ele reúne seus caçadores e pergunta, “Quem de vocês já escutou ou viu tal criatura ?” O filho do caçador que falamos contou a história como ele escutou. “Meu amigo,” disse o rei, “quando você trouxer este cervo para mim, te recompensarei ricamente ; vá e traga-o aqui.” Ele deu dinheiro para as despesas e o despediu. O sujeito disse, “Nada tema : se não puder trazer o cervo trarei sua pele ; se não puder conseguir esta , trarei os pelos.” Então o homem retornou para sua casa e deu o dinheiro do rei para sua família. Então ele saiu e viu o cervo real. “Onde devo deixar minha armadilha ,” ele pensou, “de modo a pegá-lo ?” Percebeu que tinha chance no lugar de beber água. Trançou uma corda forte com tiras de couro e a colocou com uma vara no lugar que o Grande Ser descia para beber água.

Dia seguinte, o Grande Ser com oitenta mil cervos durante sua busca por comida, lá chegou para beber água na passagem de costume. Justo quando descia foi pego no laço. Então ele pensou, “Se eu gritar o grito de captura, toda a tropa fugirá aterrorizada sem beber água.” Apesar de estar amarrado na extremidade da vara, ele permaneceu fingindo beber, como se estivera livre. Quando os oitenta mil cervos já tinham bebido, ele por três vezes puxou o laço para rompê-lo se possível. A primeira vez ele cortou sua pele, a segunda cortou sua carne e a terceira ele atingiu um tendão, de modo que a armadilha atingiu o osso. Então, incapaz de quebrá-la, ele pronunciou o grito de captura : toda a horda dos cervos fugiu aterrorizada em três tropas. Cervo Malhado, Citta, não viu o Grande Ser em nenhuma das tropas : “Este perigo,” ele pensou, “que caiu sobre nós, atingiu meu irmão.” Então retornando, ele o viu lá preso amarrado. O Grande Ser também o viu e gritou, “Não fique aí, irmão, há perigo aqui !” Então, urgindo-o a que fugisse, ele repetiu a primeira estrofe :

Com medo da morte, Ó Cittaka, as hordas de criaturas fogem :
Vá com elas e não se retarde pois devem viver contigo.

As três estrofes que seguem são ditas pelos dois alternativamente :

Não, não, Rohanta, não irei ; meu coração me aproxima ;
Estou pronto para entregar minha vida, não te deixarei aqui.

Então cegos, com ninguém para cuidar deles, nossos pais ambos devem morrer :
Ó vá e deixe-os viverem contigo : Ó não se retarde mais !

Não, não, Rohanta, não irei ; meu coração me aproxima ;
Estou pronto para entregar minha vida, não te deixarei aqui.

Ele lá ficou amparando o Bodhisatva no lado direito e o animando.

Sutana também, a jovem cerva, corria entre os cervos mas não encontrava seus irmãos em lugar nenhum. “Este perigo,” ela pensou, “deve ter caído sobre meus irmãos.” Ela voltou-se e foi até eles ; e o Grande Ser, vendo ela vir, repetiu a quinta estrofe :
Vá, cerva tímida, fuja ; uma armadilha de ferro me prende :
Vá com os outros, não se retarde, eles viveram contigo.

As três estrofes próximas são ditas alternativamente como antes :

Não, não, Rohanta, não irei ; meu coração me aproxima ;
Estou pronta para entregar minha vida, não te deixarei aqui.

Então cegos, com ninguém para cuidar deles, nossos pais ambos devem morrer :
Ó vá e deixe-os viverem contigo : Ó não se retarde mais !

Não, não, Rohanta, não irei ; meu coração me aproxima ;
Perderei minha vida, mas não te deixarei amarrado e capturado aqui.

Assim ela também se recusou a obedecer ; e permaneceu a sua esquerda consolando-o.
Bem, o caçador viu os cervos escapando fora e escutou o grito de captura. “Deve ser o rei da horda que foi pego !” ele disse ; e segurando o cinto pegou a lança para matá-lo, e correu rapidamente para cima. O Grande Ser repetiu a nona estrofe vendo-o vir :

O caçador furioso, armas nas mãos, vejam ele se aproximando !
E ele nos matará aqui ho-je com flecha ou lança.

Citta não fugiu, apesar de ver o homem. Mas Sutana, não sendo forte o suficiente par ficar parada, correu um pouco com medo da morte. Então com o pensamento - “Para onde fugirei se abandonar meus dois irmãos?” ela retornou, renunciando sua própria vida, com morte no rosto e permaneceu do lado esquerdo do seu irmão.

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Para explicar isto, o Mestre recitou a décima estrofe :

A tenra cerva em pânico de medo fugiu um pouco,
Então fez a coisa mais difícil de se fazer pois retornou para morrer.

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Quando o caçador chegou em cima, viu estas três criaturas em pé juntas. Um pensamento de piedade surgiu em seu coração, quando cogitava que eram irmãos e irmã nascidos do mesmo útero. “Só o rei da horda,” ele pensou, “esta preso na armadilha ; os outros dois estão presos com os laços da honra. Que parentesco terão com ele ?” questão que perguntou assim :

O que são estes cervos que esperam junto ao prisioneiro, apesar de livres
Que nem para salvar a própria vida o deixam aqui e fogem ?

Então o Bodhisatva respondeu :

Meu irmão e minha irmã estes, nascidos de uma mesma mãe :
Nem para salvar a própria vida me deixariam abandonado aqui.

Estas palavras fizeram seu coração amolecer ainda mais. Citta, o cervo real, percebendo que seu coração amolecia, disse, “Amigo caçador, não imagine que esta criatura é um cervo e nada mais. Ele é o rei de oitenta mil cervos, de vida virtuosa, amável com todas as criaturas, de grande sabedoria ; ele ampara pai e mãe, agora cegos e velhos. Se matares um ser correto como este, estarás matando pai e mãe, minha irmã e eu , todos os cinco ; mas se deres a meu irmão sua vida, concederás a vida a nós cinco.” Então ele repetiu a estrofe :

Tornados cegos, com ninguém para cuidar deles, ambos perecerão :
Ó concedas tu vida a todos os cinco e deixes meu irmão ir !

Quando o caçador escutou este pio discurso, ficou agraciado de coração. “Nada tema, meu senhor,” ele disse e repetiu a próxima estrofe :

Assim seja : vejam liberto agora o cervo que cuida dos progenitores :
Seus pais quando o encontrarem a salvo brincarão alegremente.

Quando disse isto ele pensou : “O que tenho a ver com o rei e suas honrarias ? Se machucar este cervo real, ou a terra se abrirá e me engolirá ou um raio cairá e me atingirá. O deixarei ir.” Então aproximando-se do Grande Ser, ele desarmou a vara e cortou a tira de couro ; então abraçou o cervo e o levou para próximo do rio e gentilmente o soltou do laço, juntou as extremidades do tendão e os lábios de carne aberta e as pontas das peles, lavou fora o sangue com água, piedosamente esfregando-o repetidamente. Pelo poder de seu amor e da perfeição do Grande Ser tudo se juntou novamente, tendões, carne e pele : couro e pelos cobriram a pata : ninguém cogitaria onde teria sido ferido. O Grande Ser ficou lá, cheio de felicidade. Citta olhava para ele e rejubilava-se e agradeceu ao caçador com esta estrofe :

Caçador, sejas feliz agora e possam seus familiares serem felizes,
Como estou feliz vendo o poderoso cervo ser liberto.

Agora o Grande Ser pensou, “Foi ideia do próprio caçador me prender ou foi ordem de outro ?” e ele questionou a causa de sua captura. O caçador disse : “Meu senhor, não tenho nada contra ti ; mas a esposa do rei, Khema, deseja escutar teu discurso sobre retidão ; por isto te prendi obedecendo as ordens do rei.” - “Sendo assim, meu bom amigo, tivestes coragem em me libertar. Vamos, leve-me ao rei e discursarei diante da rainha.” - “Na realidade, meu senhor, reis são cruéis. Quem sabe o que advirá disto ? Não ligo para honraria qualquer que o rei possa me agraciar : vás onde desejas.” Mas novamente o Grande Ser pensou que foi um gesto de coragem libertá-lo ; ele deve dá-lo a chance de ganhar a honraria prometida. Então disse, “Amigo, esfregue minhas costas com sua mão.” Ele fez isto ; sua mão tornou-se coberta com pelos dourados. “O quê devo fazer com estes pelos, meu senhor ?” - “Pegue-os, meu amigo, apresente-os ao rei e a rainha, diga-lhes que são os pelos do cervo dourado ; tome meu lugar e discurse para eles nas palavras destes versos que repetirei : quando ela escutar você, apenas isto será suficiente para satisfazer o desejo dela.” “Recite a Lei, Ó rei !” disse o homem ; e o outro ensinou-o dez estrofes de vida santa e descreveu as Cinco Virtudes e o despediu com um aviso para ser vigilante. O caçador tratou o Grande Ser como alguém trataria um professor : três vezes andou ao redor dele no sentido horário, fez as quatro obediências e embrulhando os pelos numa folha de lótus foi embora. Os três animais acompanharam-no um pouco então, após beber e comer, retornaram para seus pais.

Pai e mãe questionaram-no : “Rohanta, meu filho, escutamos que fora pego, e como estás livres ?” Colocaram a questão em uma estrofe :

Como ganhaste liberdade quando avida estava quase acabada :
Como o caçador te libertou da armadilha traiçoeira, meu filho ?

Em resposta ao o quê o Bodhisatva repetiu três estrofes :

Cittaka me ganhou a liberdade com palavras que encantam o ouvido,
Que tocam o coração, penetram o coração, palavras ditas clara e docemente.

Sutana me ganhou a liberdade com palavras que encantam o ouvido,
Que tocam o coração, penetram o coração, palavras ditas clara e docemente.

O caçador me deu a liberdade, escutando estas palavras encantadas,
Que tocam o coração, penetram o coração, palavras ditas clara e docemente.

Seus pais expressaram gratidão, dizendo :

Ele com sua esposa e família, Ó feliz eles sejam,
Como somos felizes contemplando Rohanta agora livre !

Bem, o caçador saiu da floresta e foi até o rei ; então saudando-o ficou em um dos lados. O rei quando o viu disse :

Venha, diga-me, caçador, : dizes ‘Vejam a pele do cervo trago’ :
Ou não tens couro de cervo para mostrar devido a qualquer coisa ?

O caçador respondeu :

Nas minhas mãos a criatura veio, na minha armadilha escondida,
E foi pega presa : mas outros, livres, ficaram do lado dele lá.

Então piedade fez minha carne estremecer, uma piedade estranha e nova.
Se matasse este cervo ( pensava ) então perecerei também.

Como eram estes cervos, Ó caçador, qual a natureza deles e maneiras,
Suas cores, qualidades, para merecerem tão alto louvor ?

O rei colocou esta questão várias vezes seguidas, como alguém bastante atônito. O caçador respondeu nesta estrofe :

Com chifres prateados e forma graciosa, couro e pelos muito brilhantes
Focinho vermelho e olhos brilhantes, tudo amável a vista.

Enquanto ele repetia esta estrofe, o caçador colocou nas mãos do rei os pelos dourados do Grande Ser e em outro verso adicionou a descrição da aparência destes cervos :

Tais são sua natureza e maneiras , meu senhor, e tais estes cervos :
Costumam buscar comida para os pais : não podia trazê-los para cá.

Com estas palavras ele descreveu as qualidades do Grande Ser e do cervo Citta e da cerva Sutana ; adicionando isto, “O cervo real, Ó rei, apresentou-me seus pelos ordenando-me que tomasse seu lugar e declarasse a Lei diante da rainha em dez estrofes sobre a vida santa. ( A recensão Burmesa, de Myanmar, Burma, Birmânia, lê : Então o rei o sentou em seu trono real incrustado com os sete tipos de gemas ; e sentando ele mesmo com sua rainha em um assento mais baixo, colocado do lado, com obediência reverente, pediu-lhe que falasse. O caçador falou assim, declarando a Lei :

Com teus pais, rei guerreiro, aja retamente ; e assim
Seguindo vida reta para o céu o rei irá.

Com esposa e filho, Ó rei guerreiro, aja retamente ; e assim
Seguindo vida reta para o céu o rei irá.

Com amigos e cortesãos, rei guerreiro, aja retamente ; e assim
Seguindo vida reta para o céu o rei irá.

Na guerra e em viagem, rei guerreiro, aja retamente ; e assim
Seguindo vida reta para o céu o rei irá.

Nas vilas e nas cidades, rei guerreiro, aja retamente ; e assim
Seguindo vida reta para o céu o rei irá.

Em toda terra e domínio, Ó rei, aja retamente ; e assim
Seguindo vida reta para o céu o rei irá.

Com brahmins e ascetas todos, aja retamente ; e assim
Seguindo vida reta para o céu o rei irá.

Com bestas e pássaros, Ó rei guerreiro, aja retamente ; e assim
Seguindo vida reta para o céu o rei irá.

Aja retamente, Ó rei guerreiro ; disto fluirão todas as bençãos :
Seguindo vida reta para o céu o rei irá.

Com vigilância atenta, Ó rei, vá pelas trilhas da bondade :
Os brahmins, Indra e os deuses ganharam suas divindades assim.

Estas são as máximas contadas desde antigamente : e seguindo os caminhos da sabedoria
A deusa de toda a felicidade ela mesma para o céu se eleva.

Desta maneira o caçador declarou a Lei, como o Grande Ser a mostrou a ele, com habilidade de Buddha, como se estivesse trazendo para baixo para a terra o celeste Ganges. A multidão com milhares de vozes gritou aprovando. O desejo da rainha foi satisfeito quando ela escutou o discurso.) O rei foi agraciado e repeti estas estrofes, enquanto recompensava o caçador com grande honra:

Te dou um brinco em joias, cem moedas de ouro,
Um belo trono como flor de linho, com almofadas quadradas,

Duas esposas de rank e valor iguais, um touro e cinco vacas,
Meu benfeitor ! E legislarei com justiça para sempre.

Comércio, agricultura, coleta, usura, qualquer que seja teu chamado ,
Veja que não peques mas com isto ampare sua família.

Quando ele escutou estas palavras do rei, ele respondeu, “Nenhuma casa ou lar para mim ; conceda, meu senhor, que me torne asceta.” Dado o consentimento do rei, entregou os ricos presentes do rei para sua esposa e família e seguiu para o Himalaia, onde abraçou a vida ascética, e cultivou as Oito Consecuções e tornou-se destinado ao mundo de Brahma. E o rei manteve-se fiel ao ensino do Grande Ser e foi preencher as hostes celestes. O ensinamento durou por mil anos.
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Este discurso terminado, o Mestre disse, “Assim, Irmãos, muito tempo atrás, como agora, Ananda renunciou sua vida por mim.” Então ele identificou o Jataka : “Naquele tempo, Channa era o caçador e Sariputra o rei, uma monja era rainha Khema ; alguns da família do rei eram o pai e a mãe, Uppalavanna era Sutana, Ananda era Citta, o clã Sakiya eram os oitenta mil cervos e eu mesmo era o cervo real Rohanta.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

[ n. do tr : Buddha e os devas ]



A dança crepuscular de Shiva. Shiva dançando no chão dourado de Kailasa, acima dos picos dos Himalaias circundantes para um coro de Devas e Gandharvas ou Kinnaras e diante de Devi entronizada como Raj-rajesvari. Entre os Devas para a esquerda reconhecemos Brahma, Vishnu, Sarasvati, Lakshmi, Karttikeya, Surya, Candra, Ganeshae também Narada e outros rishis e reis ; Agni de três cabeças será visto à direita do grupo de músicos Kinnaras à direita da imagem. Devi é de tez vermelha, quatro braços, e segura o laço ( pasa ) e o chicote d’elefante ( ankusa ).
A descrição seguinte é dada no Shiva Pradosa Stotra :
Tendo a Mãe dos Três Mundos em um trono dourado crivado de gemas preciosas, Salapani dança nas alturas do Kailas e todos os deuses reúnem-se a seu redor.

Sarasvati toca a vina , Indra a flauta, Brahma segura os címbalos marcando o tempo, Lakshmi começa uma canção, Vishnu toca o tambor e todos os devas estão em pé ao redor.

Gandharvas, Yakshas, Patagas, Uragas, Siddhas, Saddhyas, Vidyadharas, Amaras, Apsarasas, e todos os seres habitantes dos Três Mundos reuniram-se lá testemunhando a dança celestial e escutando a música do coro divino na hora do crepúsculo.’


A imagem é Pahari ( Kangra ) fim do séc. XVIII. Tamanho original. Coleção de Babu Gagonendranath Tagore. Vol. I, p. 56.” Prancha LXVII de ‘Rajput Painting’ de Ananda Coomaraswamy, BR Publishing, Delhi, Índia, 2003 ( primeira edição 1916 ) com a explicação do grande mestre. Clique na imagem para vê-la ampliada.


Mahanama Sutta (AN VI.10) - Mahanama ( trad. de Michael Beisert )

Em certa ocasião o Abençoado estava com os Sakyas em Kapilavatthu no Parque da
Figueira-de-bengala. Então o Sakya Mahanama foi até o Abençoado e depois de
cumprimentá-lo, sentou a um lado e disse:
"Venerável senhor, como permanece com frequência um nobre discípulo que tenha
obtido o fruto e compreendido os ensinamentos?"
"Mahanama, um nobre discípulo que tenha obtido o fruto e compreendido os
ensinamentos permanece com frequência desta forma:

(1) "Aqui, Mahanama, um nobre discípulo se recorda do Tathagata assim: 'O
Abençoado é um arahant, Perfeitamente Iluminado, consumado no verdadeiro
conhecimento e conduta, bem-aventurado, conhecedor dos mundos, um líder
insuperável de pessoas preparadas para serem treinadas, mestre de devas e
humanos, desperto, sublime.' Quando um nobre discípulo se recorda do Tathagata,
nessa ocasião a sua mente não está obcecada pela cobiça, raiva, ou delusão; nessa
ocasião a sua mente seguirá firme, baseada no Tathagata. Um nobre discípulo cuja
mente segue firme obtém inspiração do significado, obtém inspiração do Dhamma,
obtém satisfação do Dhamma. Estando satisfeito, o êxtase surge nele; naquele que
está em êxtase, o corpo fica calmo; naquele, cujo corpo está calmo, sente felicidade;
naquele que sente felicidade, a mente fica concentrada. Ele é chamado um nobre
discípulo que permanece equilibrado em meio a uma população desequilibrada, que
permanece sem aflição em meio a uma população aflita. Aquele que entrou na
correnteza do Dhamma desenvolve a recordação do Buda.

(2) Novamente, Mahanama, um nobre discípulo se recorda do Dhamma assim: 'O
Dhamma é bem proclamado pelo Abençoado, visível no aqui e agora, com efeito
imediato, que convida ao exame, que conduz para adiante, para ser experimentado
pelos sábios por eles mesmos.' Quando um nobre discípulo se recorda do Dhamma,
nessa ocasião a sua mente não está obcecada pela cobiça, raiva, ou delusão; nessa
ocasião a sua mente seguirá firme, baseada no Dhamma. Um nobre discípulo cuja
mente segue firme obtém inspiração do significado, obtém inspiração do Dhamma,
obtém satisfação do Dhamma. Estando satisfeito, o êxtase surge nele; naquele que
está em êxtase, o corpo fica calmo; naquele, cujo corpo está calmo, sente felicidade;
naquele que sente felicidade, a mente fica concentrada. Ele é chamado um nobre
discípulo que permanece equilibrado em meio a uma população desequilibrada, que
permanece sem aflição em meio a uma população aflita. Aquele que entrou na
correnteza do Dhamma desenvolve a recordação do Dhamma.

(3) Novamente, Mahanama, um nobre discípulo se recorda da Sangha assim: 'A
Sangha dos discípulos do Abençoado pratica o bom caminho, pratica o caminho reto,
pratica o caminho verdadeiro, pratica o caminho adequado, isto é, os quatro pares
de pessoas, os oito tipos de indivíduos; esta Sangha dos discípulos do Abençoado é
merecedora de dádivas, merecedora de hospitalidade, merecedora de oferendas,
merecedora de saudações com reverência, um campo inigualável de mérito para o
mundo.' Quando um nobre discípulo se recorda da Sangha, nessa ocasião a sua
mente não está obcecada pela cobiça, raiva, ou delusão; nessa ocasião a sua mente
seguirá firme, baseada na Sangha. Um nobre discípulo cuja mente segue firme obtém
inspiração do significado, obtém inspiração do Dhamma, obtém satisfação do
Dhamma. Estando satisfeito, o êxtase surge nele; naquele que está em êxtase, o
corpo fica calmo; naquele, cujo corpo está calmo, sente felicidade; naquele que sente
felicidade, a mente fica concentrada. Ele é chamado um nobre discípulo que
permanece equilibrado em meio a uma população desequilibrada, que permanece
sem aflição em meio a uma população aflita. Aquele que entrou na correnteza do
Dhamma desenvolve a recordação da Sangha.

(4) Novamente, Mahanama, um nobre discípulo se recorda do seu próprio
comportamento virtuoso como intacto, não-lacerado, imaculado, não-matizado,
libertador, elogiado pelos sábios, desapegado, que conduz à concentração. Quando
um nobre discípulo se recorda do seu próprio comportamento virtuoso, nessa
ocasião a sua mente não está obcecada pela cobiça, raiva, ou delusão; nessa ocasião
a sua mente seguirá firme, baseada no comportamento virtuoso. Um nobre discípulo
cuja mente segue firme obtém inspiração do significado, obtém inspiração do
Dhamma, obtém satisfação do Dhamma. Estando satisfeito, o êxtase surge nele;
naquele que está em êxtase, o corpo fica calmo; naquele, cujo corpo está calmo,
sente felicidade; naquele que sente felicidade, a mente fica concentrada. Ele é
chamado um nobre discípulo que permanece equilibrado em meio a uma população
desequilibrada, que permanece sem aflição em meio a uma população aflita. Aquele
que entrou na correnteza do Dhamma desenvolve a recordação do seu próprio
comportamento virtuoso.

(5) Novamente, Mahanama, um nobre discípulo se recorda da sua própria
generosidade assim: 'É deveras um ganho, um grande ganho que numa população
obcecada com a mácula da avareza, eu permaneça em casa com uma mente
desprovida da mácula da avareza, espontaneamente generoso, mão aberta,
deliciando-me com a renúncia, devotado à caridade, deliciando-me em dar e
compartir.' Quando um nobre discípulo se recorda da sua própria generosidade,
nessa ocasião a sua mente não está obcecada pela cobiça, raiva, ou delusão; nessa
ocasião a sua mente seguirá firme, baseada no comportamento virtuoso. Um nobre
discípulo cuja mente segue firme obtém inspiração do significado, obtém inspiração
do Dhamma, obtém satisfação do Dhamma. Estando satisfeito, o êxtase surge nele;
naquele que está em êxtase, o corpo fica calmo; naquele, cujo corpo está calmo,
sente felicidade; naquele que sente felicidade, a mente fica concentrada. Ele é
chamado um nobre discípulo que permanece equilibrado em meio a uma população
desequilibrada, que permanece sem aflição em meio a uma população aflita. Aquele
que entrou na correnteza do Dhamma desenvolve a recordação da sua própria
generosidade.

(6) Novamente, Mahanama, um nobre discípulo se recorda dos devas assim: 'Há os
devas dos Quatro Grandes Reis, os devas do Trinta e três, os devas de Yama, os devas
de Tusita, os devas que se deliciam com a criação, os devas que possuem poderes
sobre a criação dos outros, os devas do cortejo de Brahma, os devas que estão mais
além. Seja qual for a convicção com a qual eles estiveram dotados pela qual - ao
falecer desta vida - eles ressurgiram lá, o mesmo tipo de convicção está presente em
mim também. Seja qual for a virtude com a qual eles estiveram dotados pela qual -
ao falecer desta vida - eles ressurgiram lá, o mesmo tipo de virtude está presente em
mim também. Seja qual for o aprendizado com o qual eles estiveram dotados pelo
qual - ao falecer desta vida - eles ressurgiram lá, o mesmo tipo de aprendizado está
presente em mim também. Seja qual for a generosidade com a qual eles estiveram
dotados pela qual - ao falecer desta vida - eles ressurgiram lá, o mesmo tipo de
generosidade está presente em mim também. Seja qual for a sabedoria com a qual
eles estiveram dotados pela qual - ao falecer desta vida - eles ressurgiram lá, o
mesmo tipo de sabedoria está presente em mim também.' Em todos os momentos
em que um nobre discípulo estiver se recordando da convicção, virtude,
aprendizado, generosidade e sabedoria encontrado tanto nele como nos devas,
nessa ocasião a sua mente não está obcecada pela cobiça, raiva, ou delusão; nessa
ocasião a sua mente seguirá firme, baseada nos devas. Um nobre discípulo cuja
mente segue firme obtém inspiração do significado, obtém inspiração do Dhamma,
obtém satisfação do Dhamma. Estando satisfeito, o êxtase surge nele; naquele que
está em êxtase, o corpo fica calmo; naquele, cujo corpo está calmo, sente felicidade;
naquele que sente felicidade, a mente fica concentrada. Ele é chamado um nobre
discípulo que permanece equilibrado em meio a uma população desequilibrada, que
permanece sem aflição em meio a uma população aflita. Aquele que entrou na
correnteza do Dhamma desenvolve a recordação dos devas.

"Mahanama, um nobre discípulo que tenha obtido o fruto e compreendido os
ensinamentos permanece com frequência desta forma."


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

[ n. do tr.: Simão = Vishnu ]



Simão = Vishnu

Plutarco em suas Vidas Paralelas é largamente citado pelos historiadores mostrando o paralelismo indoeuropeu, de imagens, acontecimentos, fatos, que são ocidentais e orientais, com o ritual do campo de Kurukshetra repetindo-se vedicamente por todo o mundo. Segue o paralelismo entre Vishnu e Simão primeiro na excelência e depois na morte e numa terceira citação em seguida.

Satapatha Brahmana XIV, 1,1

1. “Os deuses Agni, Indra, Soma, Makha, Vishnu e Todos os Deuses, exceto os dois Asvins, realizam uma sessão sacrifical.

2. O lugar deles para veneração divina era Kurukshetra. Daí o Povo dizer que Kurukshetra é o lugar dos deuses, de veneração divina : daí onde quer que em Kurukshetra alguém se estabeleça, pensa, ‘Este é um lugar de veneração divina’; pois foi o lugar dos deuses para veneração divina.

3. Eles estavam sentados pensando, ‘Possamos atingir excelência ! Possamos tornar-nos gloriosos ! Possamos tornar-nos comedores de comida !’ E do mesmo modo as pessoas atualmente sentam pensando, ‘ ‘Possamos atingir excelência ! Possamos tornar-nos gloriosos ! Possamos tornar-nos comedores de comida !’

4. Eles falaram, ‘Quem quer de nós que, através da austeridade, fervor, fé, sacrifício e oblações, circundar o fim do sacrifício, será o mais excelente de nós e estará no meio de todos nós.’ ‘Assim seja,’ eles disseram.

5. Vishnu primeiro o atingiu e tornou-se a mais excelente dos deuses ; daí as pessoas dizerem, ‘Vishnu é o mais excelente dos deuses.’

6. Agora aquele que é este Vishnu é o sacrifício : e aquele que é este sacrifício é aditya distante ( o Sol ). Mais, realmente, Vishnu foi incapaz de controlar aquela glória dele ; e mesmo agora nem todos controlam sua glória.

7. Pegando seu arco, junto com três flechas, deu um passo. Permaneceu, descansando sua cabeça na extremidade do arco. Sem ousarem atacá-lo, os deuses sentaram ao redor dele.

8. Então as formigas disseram – estas formigas sem dúvida eram do tipo upadika ( n. do tr. : isto é, uma certa espécie de formiga que supõe-se encontra água onde quer que cave. ) - ‘O que daremos àquele que roer a corda do arco ?’ -’Daremos prazer do alimento e ele encontraria água mesmo no deserto : assim daremos todo prazer do alimento.’ - ‘Assim seja,’ elas disseram.

9. Tendo ido bem para debaixo dele, elas roeram sua corda de arco. Quando cortou, a extremidade saltando separada, cortou fora a cabeça de Vishnu.

10. Ela caiu com ( o som ) ‘ghrin’ ; e caindo tornou-se o Sol distante. E o resto ( do corpo ) estirado deitado com a parte de cima para o leste. E porquanto caía com ( o som ) ‘ghrin’, Gharma ( foi chamado ) ; e porque ficou estirado ( pra-vrig ) daí Pravargya ( toma seu nome ) ( n. do tr. : isto é, o gole, copo, de leite quente )”.

Plutarco, Vida de Simão ( Cimón )

VIII. “… pareceu excessiva a honra que se prestou ao nome de Simão, por que nem Temístocles nem Milcíades alcançaram tanto … por que então estimavam tanto as façanhas de Simão : não seria por acaso porque os outros dois caudilhos só trataram de rechaçar os inimigos para não ser por eles subjugados e debaixo do mando deste puderam ofendê-los e fazendo-lhes a guerra em seu próprio país adquiriram possessões e estabeleceram colônias … estabeleceram-se também em Sciro tomando-a Simão … Sabedor que ali o antigo Teseu, filho de Egeu, fugindo de Atenas, havia sido traidoramente morto pelo rei Licomedes, fez diligência para descobrir seu sepulcro, porque tinham os atenienses um oráculo que mandava se trouxessem para a cidade os restos de Teseu e o venerassem devidamente como a um herói ; porém ignoravam onde jazia porque os scirenses não mostravam e não deixavam averiguar. Encontrando pois então a cova, a força da mais extraordinária diligência, pôs Simão os ossos em sua nave e, adornando-lhes com esmero, os conduziu para a cidade depois de uns oitocentos anos, com o quê lhe estimou ainda mais o Povo. Em memória deste sucesso se celebrou uma contenda de trágicos que se fez célebre porque tendo apresentado Sófocles, que ainda era jovem, seu primeiro ensaio, como o arconte Apsefión, devido a brigas e e altercações entre os espectadores, não tinha sorteado os juízes da contenda, quando Simão se apresentou com seus colegas no teatro para fazer ao deus as libações prescritas pela lei, não os deixou sair mas tomando-lhes juramento os fez sentar e julgar sendo dez o número um de cada tribo ; assim esta contenda se fez muito mais importante pelo dignidade mesma dos juízes. Venceu Sófocles e se diz que Ésquilo sentiu tanto e o levou com pouco comedimento que não foi mais muito o tempo que viveu em Atenas, tendo-se mudado, por aquele desgosto, para a Sicília onde morreu e foi enterrado nas imediações de Gela”.

XVIII “… Quando tudo estava arrumado e as tropas já embarcadas, teve Simão um sonho. Apareceu uma cadela muito furiosa que ladrava para ele e do ladrido saía uma mistura de voz humana que dizia :
Aproxima-te, porque hás de ser amigo
meu e destes meus ternos cachorrinhos.
Sendo difícil e obscura esta visão, Astífilo de Posidonia, que era adivinho e muito conhecido de Simão, disse que aquilo significava sua morte, explicando-lhe desta maneira : O cachorro é o inimigo daquele a quem ladra e de um inimigo nunca se faz um melhor amigo que na morte ; a mistura da voz designa um inimigo medo ( da Média ), porque o exército dos medos se compõe de gregos e bárbaros. Depois deste sonho, estando ele mesmo sacrificando a Baco, dividiu o sacerdote a vítima e o sangue coagulado foram levando pouco a pouco umas formigas e colocando junto ao dedão do pé de Simão, sem que ele percebesse por algum tempo ; porém, exatamente quando viu, veio o sacerdote mostrando-lhe o fígado sem cabeça. Contudo não podendo cancelar a expedição seguiu adiante e enviando sessenta naves ao Egito navegou com todas as demais. Venceu a armada do rei … Preparados assim por Simão os princípios de grandes combates e mantendo-se com sua esquadra nas mediações de Chipre,enviou mensageiros ao templo de Amon, a inquirir do deus certo oráculo obscuro ; pois ninguém sabe ao certo para que foram enviados. Nem tampouco o deus lhes deu oráculo algum mas no momento de aproximarem-se mandou que regressassem os da consulta pois tinha já consigo a Simão. Escutando isto os mensageiros baixaram ao mar e quando chegaram ao campo dos gregos, que estava no Egito, souberam que Simão estava morto e contando os dias que passaram próximo ao oráculo reconheceram ter acontecido a morte do caudilho com o dizer que já estava com os deuses.”

Segue a comparação : os Asvins são os Gêmeos.

Satapatha Brahmana XIV, I, 18 s

18. “Bem, Dadhyañk Atharvana conhecia esta pura essência, este Sacrifício, - como esta cabeça do Sacrifício é colocada novamente, como este Sacrifício torna-se completo.

19. Ele então escutou de Indra, ‘Se você ensinar este ( mistério sacrifical ) para alguém, cortarei fora tua cabeça.’

20. Bem, os Asvins escutaram isto, -’Verdadeiramente Dadhyañk Atharvana conhece esta pura essência, este Sacrifício, - como esta cabeça do Sacrifício é colocada de novo, como este Sacrifício torna-se completo.’

21. Eles foram até ele e disseram, ‘Nós dois vamos nos tornar teus pupilos.’ -’O que vocês desejam aprender ?’ ele perguntou. - ‘Esta essência pura, este Sacrifício, - como esta cabeça da Sacrifício é colocada novamente, como este Sacrifício torna-se completo,’ eles responderam.

22. Ele disse, ‘Indra me falou dizendo, ‘Se você ensinar isto para alguém, cortarei fora tua cabeça;’ portanto temo que ele realmente corte fora minha cabeça : não posso aceitar vocês de pupilos.’.

23. Eles disseram, ‘Nós protegemos você dele.’ - ‘Como vocês me protegeriam ?’ ele respondeu. - Eles disseram, ‘Quando você nos tiver recebido como pupilos, ós cortaremos fora tua cabeça e guardamos em algum lugar ; então buscamos uma cabeça de cavalo e a colocamos em você : como esta você nos ensinará ; e quando você tiver nos ensinado, então Indra cortará fora aquela cabeça tua ; e nós buscaremos tua própria cabeça e a colocaremos em você novamente.’ - ‘Assim seja,’ ele respondeu.

24. Ele então os recebeu (como seus pupilos ); e quando ele os tinha recebido, eles cortaram fora a cabeça dele e a guardaram em um lugar ; e buscando a cabeça do cavalo, eles a colocaram nele : com esta ele os ensinou ; e quando ele os tinha ensinado, Indra cortou fora aquela cabeça dele ; e tendo buscado sua própria cabeça, eles a colocaram nele novamente.

25. Portanto é relativo a isto que o Rishi disse ( Rig V, I, 116,12 ), ‘aquele Dadhyañk Atharvana, com uma cabeça de cavalo, de qualquer modo transmitiu para vocês dois a doce doutrina :’ - ‘Irrestritamente ele transmitiu isto,’ é o quê isto significa.”


Plutarco, Vida de Simão

XVI. “Foi desde o princípio partidário de Lacedemônia e de dois filhos gêmeos que teve de Clítor, segundo diz Estesímbroto, a um pôs o nome de Lacedemônio e a outro Eleo, pelo que Péricles muitas vez lhe jogou na cara sua origem materna ; … Contribuíram muito com seus adiantamentos os lacedemônios, que já então estavam em contradição com Péricles e queriam este jovem com mais poder e autoridade em Atenas. Isto viram ao princípio com gosto os atenienses, não tirando pouco partido da benevolência dos lacedemônios para com ele ; porque no começo do seu crescimento e quando começavam a tomar parte nos assuntos dos outros povos aliados uns dos outros, não lhes viam mal as honras e obséquios feitos a Simão, posto que entre os gregos tudo se manejava a seu arbítrio, sendo afável com os aliados e muito aceito pelos lacedemônios. Mas depois quando já se fizeram os mais poderosos viram com maus olhos que Simão permanecesse contudo, não ligeiramente apaixonado pelos lacedemônios ; porque ele mesmo também celebrando para tudo os lacedemônios antes dos atenienses, especialmente quando tinha que repreendera estes ou exitá-los para alguma coisa, tomou o costume, segundo se refere Estesímbroto, de dizer-lhes : “Poucos são assim os lacedemônios !” Com o quê granjeou certo ciúme e desprezo de parte de seus concidadãos. Porém de todas a calúnia mais poderosa contra ele teve esta origem : No ano quarto do reinado de Arquidamo, filho de Zeuxidamo, em Esparta, devido a um terremoto maior que todos aqueles de que antes havia memória, em todo o território dos lacedemônios se abriram muitas brechas e estremeceu o Taigeto, alguns de seus montes se aplanaram. A cidade mesma tremeu toda e fora cinco casas, todas as demais derrubou o terremoto. No pórtico, na ocasião estava cheio, exercitando-se nele um tempo os moços e jovens, se diz que pouco antes do tremor apareceu uma lebre e que os jovens, ungidos como estavam pela moçada, se puseram a correr atrás dela e a persegui-la e enquanto isso caiu o ginásio sobre os moços que haviam ficado, morrendo ali todos ; a seu sepulcro ainda se dá atualmente o nome de Sismatia, devido ao terremoto. Previu logo Arquidamo o que ia acontecer e vendo que os cidadãos se dedicavam a recolher de suas casas o mais precioso, mandou que a trombeta fizesse sinal de que vinham inimigos para que a toda pressa acudissem armados a sua presença. Isto só foi então o quê salvou Esparta porque de todos os campos vieram correndo os ilotas para acabar com os que se salvaram dos espartanos ; porém estando em ordem de batalha se retiraram para seus povoamentos sendo contudo bem claro que iam fazer-lhes guerra por terem atraído não poucos vizinhos e vir já também contra Esparta os messênios. Enviam pois os lacedemônios para Atenas de embaixador, para pedir auxílio, a Periclidas, de quem disse comicamente Aristófanes que “sentado diante dos altares, todo pálido, com uma roupa púrpura, pedia por compaixão um exército.” Opunha-se Efialtes e com o maior empenho rogava que se negasse socorro e não se restabelecesse uma cidade rival de Atenas mas que se a deixasse no solo para ser pisado seu orgulho ; porém disse Crítias que Simão, antepondo o bem dos lacedemônios ao crescimento de sua pátria convenceu ao Povo e saiu para auxiliá-los com muita infantaria. Ion nos conta que a principal razão com que moveu os atenienses, foi exortá-los a que não deixassem cocha a Grécia nem que a cidade ficasse sem parelha”.

Antes de tudo se Simão = Vishnu, Péricles = Indra e Aristides = Agni
Plutarco, Vida de Péricles
VIII “… ainda que se diga quedos primores com que adornou a cidade e outros que de sua autoridade no governo e nos exércitos, lhe veio que o chamassem Olímpio : bem que nada de estranho havia que todas estas coisas houvessem contribuído naquele homem insigne a gloriosa denominação. Mas as comédias contemporâneas lançaram então muitas vozes sérias ou ridículas contra ele ; de seu modo de falar mostram haver originado principalmente o tal apelido porque diziam dele que trovejava, que lançava centelhas e que levava na língua um raio tremendo quando falava em público”.

Plutarco, Vida de Aristides
XX. “Depois destes sucessos não concordavam os atenienses em conceder a honra de valor aos lacedemônios, nem lhes permitiam levantar troféus, estando por muito pouco que de repente se arruinasse toda aquela felicidade dos gregos, estando como estavam sobre as armas, não fora Aristides, exortando e persuadindo a seus colegas, especialmente Leócrates e Mirônides, alcançou e obteve deles que se deixasse a decisão para os outros gregos ( da Anfictionia delphica cujas pernas , irmãos gêmeos, são as duas cidades maiores ). Deliberando pois estes propôs Teógiton de Megara que a honra de valor deveria se dar a outra cidade se não se queria que incendiasse uma guerra civil e como com esta proposta se pôs de pé Cleócrito de Corinto, logo fez crer que ia pedir o prêmio para os coríntios porque depois de Esparta e Atenas era Corinto uma da cidades de mais fama ; mas fez a favor de Platea uma admirável proposta que agrado a todos porque aconselhou para acabar com a disputa se desse a honra de valor para os plateenses com cuja preferência ninguém se incomodaria ; assim foi que prontamente outorgou Aristides para os atenienses e em seguida Pausanias para os lacedemônios. Reconciliados deste modo, separaram do botim oitenta talentos para os de Platea com os quais reedificaram o templo de Minerva, lavraram sua estátua e adornaram o templo com pinturas que ainda no dia de hoje se conservam frescas. Levantaram troféus separadamente : de uma parte os lacedemônios e de outra os atenienses ; porém quanto a sacrifícios, havendo consultado Apolo Pítio lhes deu em resposta que construíssem a ara de Júpiter ( Diu-pater ) Libertador e que se abstivessem de sacrificar até que, apagado o fogo de todo o país, como contaminado pelos bárbaros, o acendessem puro no altar comum de Delphos ( a anfictionia delphica propriamente com o nome das 31 cidades escritos na coluna da trípode ). Os magistrados pois dos gregos enviaram de Povo em Povo, para que todas as casas apagassem os fogos e em Platea tendo se oferecido Euquidas para ir com toda a diligência pegar e trazer o fogo de Deus, marchou para Delphos. Lá lavou o corpo, fez aspersões, corou-se de louros e tomando da ara o fogo foi correndo para Platea e chegou antes do pôr do Sol, tendo andado naquele dia mil estádios. Saudou a seus concidadãos e imediatamente caiu ao solo e daí há pouco expirou. Recolheram os de Platea seu cadáver e o sepultaram no Templo de Diana Euclia pondo por inscrição este tetrâmetro
De Sol a Sol Euquidas correndo
Foi e veio de Delphos em um mesmo dia.
E o sobrenome de Euclia dão a Diana porém alguns dizem que Euclia foi filha de Hércules e Mirtis, filha de Menécio e irmã de Pátroclo que tendo morrido donzela é tida em veneração pelos beócios e os larcos porque sua ara e sua estátua se vêm colocadas em todas as praças e fazem sacrifícios as noivas e noivos”.


O ritual em Kurukshetra repete-se então.

A cabeça da Lebre e a cabeça do Cavalo pode se comparar ? Primeiramente o artigo de Ananda Coomaraswamy, Sobre lebres e sonhos in ‘What’s civilization ?’, Ed. Golgonooza, Ipswich, 1989, confirma a hipótese : olhando o Jataka 316 em que a Lebre lança-se ao fogo do sacrifício em oferta e a frase de Arato, Phainomena, epígrafe do artigo, que lembra o movimento astronômico das constelações da Lebre e do Cão : ‘a Lebre a quem o Cão persegue, numa corrida sem fim’ : ela entra no jardim do hortelão para pegar a comida da vida mas o cão a vê e corre atrás dela e a corrida tem seu desfecho na porta estreita em que a lebre perde o rabo mas escapa em novo nascimento com o alimento sagrado: o mesmo que no galinheiro a raposa gorda fica presa depois de comer três dias : ‘estreita é a porta, apertado o caminho.’ Segue um trecho deste artigo em que Coomaraswamy comenta o livro do dr. Layard, The lady of the hare, Faber & Faber, London, 1945 :

“ Tivesse Dr. Layard conhecido o importante trabalho de Karl von Spiess, no ´Die Hasenjagd´ publicado em ´Marksteine des Volkskunt, i.e. o Jahrbuch fur historiche Volkskunde, V, VI, Bd. 1937, pp 243 - 267, ele poderia ter penetrado ainda mais profundamente o significado da Lebre. Mais especialmente em conexão com os contrários, os pares de opostos, os quais ele discute nas páginas 46 a 69 e alude em algum outro lugar. Porque o simbolismo da Lebre está muito estreitamente relacionado com o das Simplegades1, um motivo arquetípico que se distribui por todo mundo notadamente Americano, Céltico e Hindu assim como Grego. Já a muito se reconhece que as Simplegades, ou as `Rochas que batem´, são os batentes da Janua Caeli a Porta do Sol e porta do Mundo do Chandogya (VIII.6,5,6) e Maitri (VI.30) Up. onde estes portões são uma entrada para o sábio mas uma barreira para o tolo. Nas palavras de Karl von Spiess, “Além das ´Pedras que batem´ no Outro mundo está a Maravilha da Beleza, a Planta e a Água da Vida”, e naquelas de Whitman ‘tudo espera, não sonhado naquela região, aquela terra inacessível’ uma terra da qual ´não há retorno´ por qualquer necessidade ou operação de causas mediatas (ananke, karma) mas somente como ‘Os que se movem na vontade’ (kamacarin) .

Os batentes da porta, que também é a auto-operada, automática Mandíbula da Morte, são os pares de opostos, ou contrários (enantia, dvandvau) aos quais nossos gostos nos atrai e dos quais nossos desgostos nos repele e da tirania de quem o peregrino busca escapar (dvandvair vimuktah sukhaduhkhair-sanjñai gaccanti padam avyayam, Bhagavad Gita, XV. 5 ). É destes contrários, como Nicolas de Cusa disse, que a parede do Paraíso é construída; quem quer que entre deve passar pelos batentes do altíssimo espírito da razão (‘Eu sou a porta das ovelhas; por mim ...’), quer dizer entre as Rochas que Batem, pois nas palavras dos Upanishads, ‘não há entrada lateral aqui no mundo’. Daí porque também tantos ritos são realizados ‘dawn and dusk’ no amanhecer ou no entardecer ‘quando não é nem noite nem dia’, e por meios que são não descritivos, por exemplo ‘nem úmido nem seco’. É de fato, deste ponto de vista apenas, que pode ser entendido porque a palavra Indiana para theosis, deificação (brahma-bhuti, literalmente ‘tornando-se Brahma’; no Budismo, sinônimo do atingir o estado de Buda, o estado de ‘amplamente desperto’) é também denotação de crepúsculo (samadhi, literalmente ´síntese´, ou estado de estar ‘em samadhi). O perigo de ser esmagado pelos contrários, novamente, é a razão de carregar-se a noiva pela soleira da nova casa, o Noivo correspondendo ao Psicopompo que leva a alma através da soleira do outro mundo onde ambos irão ´viver felizes para sempre´. O caminho é ´estreito´ realmente justo porque os contrários ´batem´, fazendo contato imediato e incessante. Por exemplo, se nós considerarmos os contrários passado e futuro , o caminho repousa evidentemente através do eterno agora sem duração, um momento do qual a experiência empírica é impossível e ela ‘não dá tempo’ no qual percebê-la; ou usando símbolos espaciais, o caminho repousa através do ponto não dimensional que separa todo aqui de lá, e ´não nos deixa lugar´ através do qual passar; ou se os termos são éticos, então o caminho é um que demanda espontaneidade e inocência transcendendo o ´conhecimento do bem e mal´ e que não pode ser definido em termos de valores de virtude e vício que se aplica a todo comportamento humano. Assim ele somente está qualificado a passar através do meio do Sol que virtualmente já passou; logicamente e humanamente falando o caminho é um impasse; e não é nenhuma maravilha que todas as tradições falem de um deus Guia, deus Porta e Psicopompo que leva ao caminho e abre as portas para aqueles que querem voluntariamente seguir.

Em todas as histórias daquelas, do termo folclórico ´Porta ativa´ seja Esquimó, Céltica ou Grega, encontramos aquela parte, a parte ´de trás´ , ou ´apêndice´ , da pessoa ou veículo, nave ou cavalo no qual a jornada é feita, é cortado fora é deixado para trás. Assim, no caso dos heróis Irlandeses, a portícula do Castelo Doutro mundo , cai tão rapidamente que corta as roupas e as esporas das costas do cavaleiro e derruba e divide seu cavalo do qual a parte de trás é perdida e já que o caminho para dentro é ambos o que é Imortal e Desconhecido , é claro que o que é cortado fora é a parte mortal do entrante, a pessoa conhecida ou personalidade que nunca foi, por que sempre foi trocando e nunca conheceu um agora ou escapado da teia lógica de alternativas polares.”

Henri Jeanmaire, “Couroi et Courètes, essai sur l’education spartiate et sur les rites d’adolescence dans l’antiquité hellénique”, Lille, France, 1934, também confirma a tese pois mostra porque o resgate dos ossos de Teseu é a realização de todo sacrifício e como por toda a Grécia há uma iniciação em que o mistagogo, o iniciador, tem cara de bicho posto que situado na Mãe Natureza, no deserto, na floresta, o lugar fora do mundo das pessoas, para-oikia ( paróquia, do lado-casa ) para onde são levados meninos e meninas, por quarenta dias, ou quinze, em penitência e arrependimento, antes de voltarem e se tornarem cidadãos plenos, iniciados. No ritual deste afastamento para o mundo selvagem repete-se uma disputa como a de IHS no deserto por 40 dias durante a Quaresma : ‘os demônios O espicaçavam e os anjos O protegiam’ onde aparece inclusive as três tentações da serpente do paraíso que desta vez não tem sucesso. As crianças, jovens, adolescentes, que vão se tornar adultos iniciados passam ritualmente por esta prova, literal, entre dois partidos, dois lados, duas forças. A comparação com a luta entre deuses e titãs se estabelece posto que argila, gesso, fuligem, cobre o rosto dos titãs que comungaram da carne de Dionisos salvo o coração : são fulminados pelo raio de Zeus e de suas cinzas são feitos os seres humanos. A esta luta original somos remetidos, transportados. Francis Vian mostra em sua obra esta luta entre deuses & titãs na arte greco-romana, tema amplamente difundido. Os espartanos armados em pleno terremoto esperando o inimigo, aproxima-se, enquanto cena, de Pausanias querendo iniciar a guerra em Platea com um sacrifício mas os lídios arrebatam a oferta, acontecimento descrito em Plutarco, Vida de Aristides, XVII “… estando Pausanias sacrificando e fazendo orações a pouca distância da formação, chegaram de repente alguns lídios com o objetivo de arrebatar as ofertas e não tendo armas Pausanias e os que o ajudavam, os afastaram com varas e chicotes e que agora em imitação daquela investida, se repetem todo ano os golpes e açoites que se dão nos jovens sobre a ara e a pompa da procissão dos lídios.” Cf também Plutarco, Vida de Simão, I, em que aparece pessoas com o rosto coberto de fuligem assaltando Queronea, sua cidade : o autor se remete a este, velho homem feito de argila e que disputa, assalta, luta, na existência, vida . No Satapatha Brahmana, que vemos está próximo em seu conteúdo, aparece muitas vezes este confronto original :

II, 2, 2, 8 s : “Bem os deuses e os Asuras, ambos brotaram de Prajapati, estavam brigando uns com os outros. Ambos eram desalmados pois eram mortais e o quê é mortal é desalmado. Entre estas duas classes de seres que eram mortais,Agni apenas era imortal ; e foi através dele, o imortal, que ambos viviam. Bem quem quer dos deuses que eles os asuras matassem, era realmente morto.
9. Com isto os deuses foram diminuindo. Eles seguiram rezando e praticando austeridades, esperando que pudessem ser capazes de vencer seus inimigos, os mortais asuras. Eles contemplavam este Agnyadheya ( fogo consagrado ) imortal.
10. Eles disseram, ‘Vamos, coloquemos este elemento imortal em nossa mais íntima alma ! Quando tivermos colocado o elemento imortal em nossa alma mais íntima e nos tornado imortais e invencíveis, venceremos nossos inimigos mortais’”.

I, 1, 2, 3 : “Pois os deuses quando estavam realizando o sacrifício, temiam perturbação da parte dos Asuras e Rakshas : daí por este meio ele os expele de lá, na abertura mesma do sacrifício, aos maus espíritos, os Rakshas.” Cf I, 1, 4, 16.

I, 8, 1, 16 : “Naquele tempo Manu tornou-se apreensivo pensando, ‘Esta parte do meu sacrifício – isto é, este idâ representando a oferta doméstica – é certamente a mais fraca : os Rakshas não devem danificar meu sacrifício neste lugar’. De acordo com isto ( a manteiga retirada do idâ e esfregada nos lábios ) ele a promoveu ( a idâ para um lugar seguro pensando ), ‘antes que os Rakshas venham ! Antes que os Rakshas venham !’” . Repete-se em seguida o refrão desta corrida.

III, 2, 1, 18 : “Bem, os deuses e os asuras ambos brotaram de Prajapati, entraram ambos na herança de seu pai Prajapati : os deuses receberam a Mente e os asuras a Fala. Com isto os deuses entraram no sacrifício e os asuras na fala ; os deuses lá ( no céu ) e os asuras aqui ( na terra ).” Como a Palavra é mulher os devas acabam por seduzi-la e levá-la para o sacrifício.

V, 1, 1, 1 : “Certa vez os deuses e os asuras ambos brotaram de Prajapati, brigavam entre si. E os asuras, arrogantes, pensavam, ‘Em quem devemos fazer ofertas ?’ continuaram ofertando para as próprias bocas. Eles nada alcançaram por causa da arrogância mesma : daí que ninguém seja arrogante pois arrogância é causa de ruína.
2. Mas os deuses continuaram fazendo ofertas uns para os outros. Prajapati ofertou ele mesmo para eles : assim o sacrifício tornou-se deles e realmente o sacrifício é a comida dos deuses.” Cf. V, 2, 4, 7 ; VI, 3, 1, 29 ; VI, 3, 3, 24s.

IX, 2, 3, 2 : “Naquele tempo, como os deuses estavam se aprontando para realizar este sacrifício, os asuras, inimigos traidores, tentaram atingi-los do sul, dizendo, ‘Vocês não sacrificarão ! Vocês não realizarão o sacrifício !’ … 8 : “Os deuses e os asuras ambos brotaram de Prajapati e estavam disputando as regiões e os deuses arrancaram as regiões dos asuras e no mesmo modo o sacrificante agora arranca estas regiões do seu rival odioso.” Paralelos ( // ) em 13 e 23 repetindo como um refrão.

IX, 5, 1, 12 : “Os deuses e os asuras, ambos brotaram de Prajapati receberam a herança de intelecto, fala – verdadeira e mentirosa, ambos verdade e mentira : ambos falavam a verdade e ambos falavam a inverdade ; e realmente, falando igual, eram iguais.
13. Os deuses abandonaram a inverdade e seguraram firme a verdade e os asuras abandonaram a verdade e seguraram firme a inverdade. …
19. Eles prepararam a oferta de iniciação. Mas os asuras tomaram conhecimento disto e disseram, ‘Tendo preparado o sacrifício, os deuses agora espalham a verdade : vamos pegar lá o quê é nosso !’ … Os deuses espiando os asuras retiraram o sacrifício e começaram a fazer outra coisa. Eles ( os asuras ) saíram fora pensando, ‘Eles estão fazendo outra coisa.’” Paralelos em 20, 21, 22, 23 como um refrão sendo que no última estrofe o sacrifício acontece e os asuras saltam para baixo, pulam para baixo : o tema do salto aparece largamente no livro Henri Jeanmaire posto que relato a estes rituais e especialmente a Egeu e Teseu.

IX, 5, 9, 3 : “Bem, os deuses e os asuras, ambos brotaram de Prajapati, estavam brigando – era pelo sacrifício mesmo, por Prajapati, que estavam brigando, dizendo, ‘Nosso ele será ! Nosso ele será !”

IX, 5, 5, 1 : “Bem quando os deuses estavam passando para cima para o mundo celeste, os Asuras envolveram-los em escuridão. Eles falaram, ‘Verdadeiramente por nada a não ser uma sessão sacrifical pode se dispersar esta escuridão : bem então realizemos uma sessão sacrifical !’”

III, 6, 3, 8 : “Então ofereceu a segunda oblação para o Ligeiro ( Pequeno Polegar ) com,’ Possa o Ligeiro graciosamente aceitar a manteiga, salve ! Pois ele falou naquele tempo, ‘Verdadeiramente, temo os rakshas : façam-me ser muito pequeno para seu dardo mortal, de modo que os maus espíritos não me machuquem no caminho ; e atravessando-me na forma de uma gota, pois a gota é ligeira.’ E concordemente, tendo-o feito muito pequeno para o dardo mortal , o levaram em segurança na forma de gota, por medo dos rakshas pois gota é ligeira : por isto ele oferece a segunda oblação para o ( Pequeno Polegar ) o Ligeiro.” Henri Jeanmaire em seu livro também fala largamente do Pequeno Polegar seja de Perrault, seja dos Grimm e aqui temos novamente uma referência que ajuda a entender e comprovar que ele estava certo ao relacionar o antigo ritual grego com esta história tradicional. O estar no útero, ou na barriga, é imagem também largamente presente no Satapatha Brahmana sendo que a antiga pele negra de antílope, no lugar de um tapete, é este principal lugar em que o ser humano é gerado, cresce e nasce : o lugar do sacrifício mesmo e do altar.

VI,3, 1, 29 : “Eles estavam no lado sul ; pois os deuses naquele tempo temiam que os rakshas os inimigos pudessem atingir o sacrifício no sul. Eles viram o raio, Sol longíquo ; pois esta cavalo é realmente o Sol distante ; e através do raio eles afastaram os rakshas, os inimigos do sul e espalharam este sacrifício em um lugar livre de perigo e maldade. …”. Enfim o raio.

A comparação pode continuar com os parágrafos de Plutarco referentes ao tempo de Saturno, Cronos, próprio da época de Simão e Aristides. O fato de Simão morar com a irmã Elpinice.

Enfim, quando IHS diz para a mulher siro fenícia “Mulher, grande é tua fé !” uma vez que a fé em questão fala de cachorrinhos que comem migalhas da mesa de seus senhores no caso Abrãao, Isaac e Jacó e os profetas não seriam os mesmos cachorrinhos do sonho de Simão ?


Charles Renel, L’évolution d’un mythe : Asvins et Dioscures, Lyon, 1896, encerra o assunto dando todas as respostas a respeito deste restabelecimento da cabeça do sacrifício pelos Asvins : a expressão litúrgica que Paul Regnaud, Les Premieres formes de la religion et de la tradition dans l’Inde et la Grece, Paris, 1894, tão bem explicitou e que Renel segue, foi, sabe-se lá por que cargas d’água, esquecida pela historiografia contemporânea. A contrariedade original mostra-se então com água fogo, libação chama, e claro prenúncio do carne sangue, pão vinho.   

Cf http://vidasdebuddha.blogspot.com.br/2008/06/133-vejam-em-tua-fortaleza.html



1 a nave Argo atravessando as ´Rochas que batem´ soltam antes uma pomba para passar no contratempo: a pomba perde o rabo. Apolonio de Rodes.